Review: Ebony – Visão Periférica

No seu disco de estreia, Ebony mostra talento e criatividade na busca de uma sonoridade própria dentro do trap

Toda arte começa com uma ideia. Independente do formato, o ato de criar é o que sempre vem primeiro. Atributos como talento e esforço (dois assuntos sempre comentados por rappers) são as maneiras que os artistas encontram de lapidar esses diamantes. Outros fatores como experiência e criatividade também fazem parte das ferramentas necessárias para que uma ideia se transforme em uma obra.

Claro, nem todas as ideias nascem iguais. Algumas já surgem ruins. Outras não se realizam pelas falhas na execução. Mas o que acontece quando se mistura as ideias de uma artista ainda em ascensão com a experiência e conhecimento de nomes estabelecidos do rap? No seu disco de estreia, Visão Periférica, a carioca Ebony mostra talento e criatividade na hora de executar ideias, juntando-se com os produtores Nave e BeNo em busca de uma sonoridade própria dentro do trap. 

Por mais que nomes como esses possam passar uma ideia de um projeto carregado pelos beats (como são muitos dos álbuns de trap na cena atual), o que realmente leva o disco em frente é a entrega da rapper e o seu flow energético, que resulta em versos divertidos e refrãos viciantes. Na primeira faixa, ‘Pablo’ (curiosamente chamada também de Interlúdio pela artista, mesmo estando no começo do disco), única track não produzida pela dupla (e sim pelo carioca AJ Wav), Ebony impõe sua levada sobre um instrumental simples e um pouco repetitivo, mas que não se estende por tempo suficiente para que isso chegue a ser um defeito.

Essa é, aliás, uma das maiores características do disco. A forma com que a MC aborda suas ideias é até simples, porém (quase sempre) acertada: usá-las por um curto tempo e já partir para a próxima. Isso impede que as músicas e melodias utilizadas se tornem desgastantes e faz com que o álbum inteiro seja fluido e tenha um ritmo acelerado, combinando com seus instrumentais e a energia que ele quer passar. Ainda assim, isso deixa um gosto agridoce na boca: por mais que seja sempre uma boa decisão acabar no momento certo, algumas canções deixam um gostinho de quero mais e não parecem ter sido exploradas ao máximo.

Uma amostra disso é a curtíssima música ‘Festa do Pijama’. Com produção de Nave, o instrumental é um clássico trap com loop de flautinha e violão, enquanto o grave bate sincopado e potente, e os hi-hats dançam ao logo da melodia, ajudando no ritmo e guiando para o refrão, momento que o beat passa a ter mais influência do estilo contemporâneo do hip-hop da costa leste americana (como nos trabalhos de DJ Mustard e YG). O divertido verso de Ebony (com linhas como a hilária “Me desculpe, Alcione, eu amo um harém”) combina com o bom verso da cantora mineira Urias, artista conhecida por suas colaborações com Pabllo Vittar.

Enquanto algumas faixas te deixam com gosto de quero mais, outras dão um certo respiro quando acabam. ‘After’, com participação do paulista Yunk Vino, é uma faixa sustentada em parte pela sample fazendo a referência a Lil Wayne e pelo flow da anfitriã e do convidado. Com pouco mais de dois minutos, a faixa passa tão rápido que, mesmo não estando entre os grandes acertos do projeto, não chega a se destacar negativamente, já que mal tem tempo para deixar uma má impressão.

E já que estamos falando de participação, o projeto conta com nomes de peso entre os convidados. Em ‘Pódio’, track com loop de guitarra durante os versos e uma flautinha no refrão (e direito ao “vuk” do funk) pelas mãos de BeNo, Borges e Ebony rimam sobre suas trajetórias em um conceito já meio batido, mas que resulta em uma boa faixa. Já ‘Camarim’, com uma curta participação de BK, chama mais atenção pelo ótimo uso de guitarra no instrumental (também produzido por BeNo) e pelo refrão da artista.

Porém, o uso tímido das participações e, em alguns momentos, uma aparente falta de vontade de abordar mais a fundo algumas das ideias levantadas ao longo do disco, deixam uma má impressão. Não pela falta de complexidade em algumas faixas (já que muitas músicas do projeto funcionam justamente por serem mais diretas), mas por deixar transparecer que, nesses momentos, o caminho escolhido foi o mais seguro, mesmo vindo de uma pessoa que mostra ser criativa e diferenciada.

Já quando se fala de boas impressões, um dos maiores destaques de Visão Periférica é a faixa ‘Caneta’, com produção conjunta de Nave e BeNo. A produção soturna no início, com sample de vocais e piano de fundo, acompanha hi-hats e graves simples. Porém, as mudanças ao longo da track, ora fazendo um build up durante o refrão ou sumindo com a percussão pra dar espaço pras rimas, elevam o seu nível em relação às outras. O ótimo e viciante refrão também encanta além, de, obviamente, contar com uma das melhores rimas do disco inteiro (o que é esperado de uma faixa com esse nome):

Conquistei o meu espaço só aceita, boo

Já tá velha se passando como lil bitch

Eu fiz com 20 tu nao fez com 30, é que só ando em bando

Mostro que talento esgota quando ter dinheiro é parte do plano 

Não foi só em ‘Caneta’ que ela mostrou sua capacidade na escrita. Em ‘Melhor do Ano’ a carioca abusou das rimas internas e algumas multisilábicas para criar uma uma das melhores faixas do projeto, sem deixar de lado boas rimas (“Morei em lugares bonitos pra clipes e ruins de morar / Eu namorei modelos e atrizes que são ruins de namorar”). Coincidentemente, a faixa também é produzida por Nave e BeNo, e o instrumental se desenvolve bem, com sintetizadores de fundo e finalizando numa virada quase EDM.

Já em ‘Fé’, Ebony coloca seu coração na ponta da caneta e lança o melhor verso, e o mais intimista também, do disco (com rimas como “Tenho a pele escura  / Busco ter clareza nos meus versos / Pode olhar pra bunda / Ela e a minha mente vem de berço”). O beat é um trap R&B pelas mãos de Nave, que utiliza bem os vocais ao longo da faixa, dando um toque emocional, e reutilizando esses mesmos vocais só que invertidos no final (um truque manjado, mas eficaz).

No fim, Visão Periférica é um álbum marcado pela demonstração da habilidade do flow e da lírica da carioca, com ajuda de apostas seguras na produção. Mesmo que a falta de complexidade na estrutura das músicas (quase sempre no formato verso/refrão/verso) deixe o projeto meio repetitivo num olhar rápido, é possível ver o cuidado que a artista teve com o que foi colocado ali, culminando em um projeto relativamente simples, mas com pouquíssimos pontos negativos.

Levando tudo isso em conta, o carisma e o talento mostrados em seu disco de estreia são nítidos. Ebony é uma artista diferenciada na cena mainstream do trap por conseguir falar de assuntos banais de forma divertida, não ter medo de se mostrar vulnerável ou falar de fraqueza emocional (em um gênero que o máximo de tristeza que vemos é quando se fala de amor ou de morte) e pela sua consistência em entregar criatividade nos seus vocais. E mesmo que não seja necessário reinventar a roda do trap, uma coisa dá pra apostar: de onde saíram essas ideias, com certeza virão outras ainda melhores.

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