Review: Big Sean – What You Expect? [EP]

Com brilhos esporádicos, esse trabalho inexpressivo de Big Sean retirou de cena a boa expectativa que se tinha para seu próximo álbum

Antes de iniciar a review deste EP, é interessante contextualizar um pouco a trajetória de Big Sean até aqui. Após lançar algumas mixtapes entre 2007 e 2010 e conseguir contratos com grandes gravadoras, como Def Jam e G.O.O.D Music, o artista colocou na pista seu primeiro álbum de estúdio, Finally Famous, que fez um ligeiro sucesso local. Seu segundo trabalho ganhou mais atenção após o rapper convidar Jay Electronica e Kendrick Lamar para a polêmica Control. Assim como na música, completamente roubada por Kendrick e sua performance acima da média, Sean foi se acostumando a coadjuvar, tanto na cena de Detroit, quanto no rap em geral.

Quatro álbuns depois esse cenário mudou quando o MC apresentou o melhor projeto de sua carreira, Detroit 2. Cercado pela desconfiança dos críticos e de seu público mais fiel devido a ausência de relevância de seus últimos álbuns, o rapper trouxe pela primeira vez o bem sucedido produtor, Hit-boy, talvez o maior nome da atualidade quando o assunto são beats de sucesso e produções de alta qualidade. Mesmo desacreditado, o rapper inovou e contrariou todas as expectativas, surpreendendo a crítica e alcançando boas notas da mídia especializada, o que de fato é uma conquista e tanto para alguém que foi tão questionado ao longo dos anos. Com base nisso, de volta para 2021, calejado e confiante, Sean estreia seu EP estampando Hit-Boy na capa e na produção, cravando de vez a parceria para o segundo capítulo da discografia do MC.

Embora EPs em geral tenham essa “liberdade” artística (muitas vezes livres de conceitos e, principalmente, de investimentos) trazer um produtor deste calibre e investir em quatro clipes faz com que o projeto traga consigo uma certa expectativa que também gira em torno de sua atual independência da G.O.O.D Music. O rapper agora caminha sozinho após anunciar sua saída da gravadora de Kanye West e as primeiras impressões vieram com o single ‘What a Life, dropado pouco antes da estreia do projeto. Com muita energia e pouca rima, a track traz poucos elementos novos para o repertório do MC. A maior sensação que ela fornece ao ouvinte é a dele estar ouvindo a versão remix de uma música do seu disco Double or Nothing de 2017.

A performance mediana segue em ‘Chaos, trazendo temas como dinheiro, conquistas e uma certa “gastação” com rappers em geral. Tudo em uma composição muito simples, sem boas sacadas e um refrão que soa muito repetitivo. Enquanto as rimas assumem o papel de coadjuvante, a produção de Hit-Boy rouba a cena. Um beat bem caótico, com graves intercalando um loop incansável de sintetizador que casa muito bem com a proposta do título. Seguindo, NAS aparece de surpresa na introdução da segunda track ‘Into it, que conta com um desempenho lírico muito melhor de Big Sean. Principalmente no segundo verso, onde mais uma vez a produção atua de forma precisa, mudando totalmente o tom do beat para algo mais cadenciado e deixando o rapper à vontade para expressar seus sentimentos em relação à indústria da música e a como é difícil ascender, especialmente quando não se tem conexões com os grandes nomes do show business.

Em outro momento de sobriedade do rapper, ‘The One’ surge como uma ótima continuação para o EP. Em tom de “freestyle”, Sean apresenta apenas um verso em cima de um beat com uma pegada mais desacelerada e um ótimo sample retirado da música ‘You’re The One’ do grupo de R&B SWV (Sister With Voices), sonoridade que poderia ser muito mais explorada em outras faixas. Aqui o MC desempenha muito bem tanto o delivery quanto a caneta, com ótimas referências e construções como:

Old school, top down, slidin’ to Phil Collins (Swerve)

And, God, my Phil Jackson

And somehow he blessed me with Uncle Phil wallet (Frrrt)

But my other Uncle Sam in my pockets, it’s like I’m Philanthropic (Damn)

Para concluir o trabalho, ‘Loyal to a Fault‘ traz duas das quatro participações convocadas pelo anfitrião do EP: Bryson Tiller e Lil Durk. A proposta é ser aquela música genérica para pré-adolescentes na puberdade, não agregando em absolutamente nada ao projeto. Começando pelo flow de Lil Durk, totalmente desconexo com a batida, passando por Big Sean assumindo o refrão enquanto Bryson Tiller faz dobras vocais além do último verso da track. Esse até tenta salvar a faixa com uma boa performance vocal, mas acaba deixando mais evidente como tudo está fora de lugar na estrutura do som. Os flows deslocados e o fato da melhor voz não segurar o refrão são constrangedores. Entretanto, ela seria superada no um contra um por ‘Offense’, de nome bem sugestivo, que traz as últimas participações do projeto, sendo Babyface Ray e 42 Dugg, seu conterrâneo de Detroit. Em um mundo onde já exista uma inteligência artificial capaz de compor músicas e que fossem adicionadas a esta máquina um mix das vozes dos três artistas, o resultado seria exatamente o sentimento final que esta track proporciona. Trap sem carisma, sem vida. Apenas mais um bom beat criminosamente desperdiçado.

De fato, a produção protagonizou o EP. Hit-Boy acertou mais uma vez, levando todo o seu talento e perspicácia para o projeto. O produtor vai além e experimenta novos estilos e sonoridades, sempre em cima de uma mixagem excepcional. Embora tudo indicasse para uma boa performance do rapper, ele passou longe de impressionar, assim como seus convidados, todos com participações mal executadas e totalmente esquecíveis. Com brilhos esporádicos, esse trabalho inexpressivo de Big Sean retirou de cena a boa expectativa que se tinha para seu próximo álbum. Uma reflexão comum durante a audição é imaginar como outros rappers se sairiam nesses beats, o que é um péssimo sinal de alerta para qualquer artista deste patamar. Se o propósito deste projeto foi gerar hype, então não foi o melhor movimento de sua carreira, definitivamente. Entre compromissos e liberdades, o EP What you Expect foi exatamente o que não se esperava.

Melhores Músicas: Into It e The One.