Review: Sidoka – SHH…

SHH…, apesar de um disco divertido, baseia-se apenas na boa performance do artista dentro da sua área de conforto

Toda boa história precisa de mistério. Não falo necessariamente de mistério como gênero, daqueles com crimes e detetives, mas de algo mais abstrato: o que uma história realmente boa precisa é apresentar algo de uma forma inesperada. Seja alguma coisa que a gente já conhece ou não, é a sensação de surpresa e animação quando o segredo é descoberto que fica na nossa memória. Assim também é na música: é esse “mistério”, esse momento de revelação, do novo ou do antigo, o que separa os grandes trabalhos daqueles que com o tempo vão ser esquecidos. Mas, o que sobra quando já não existe mistério?

Foi em 2018 que o rapper mineiro Sidoka se tornou um dentro do rap nacional. Quem é aquele cara que, numa faixa com Djonga e Sant, mandou uma das melhores participações em um dos melhores discos do ano? No começo do ano, o artista já tinha dado indícios de talento com a mixtape Dokaz, deixando isso bem claro em seguida, com seu primeiro grande trabalho, Elevate. No entanto, entre EPs, mixtapes e álbuns de estúdio, 6 diferentes projetos separam o ano de 2018 com o ano de 2021.

É óbvio que muito da vida de Sidoka já não é mais mistério hoje: a presença do rapper nas redes sociais é imensa e seu fã-clube fiel é extremamente vocal na internet. Até o estilo de se vestir que ele ajudou a popularizar, sempre de luva e “oclin”, tornou-se meme nas redes sociais. Tão pouco sobrou para descobrir sobre o rapper, que a primeira música do disco (isso é, a primeira canção de fato, após a curta intro SHH…) se chama justamente ‘LUVA&OCLIN’, com Ft. DJ Coala & Dogdu. 

A produção de Dogdu, que aparece como um dos feats da faixa, juntamente do DJ Coala, é simples mas animada e a capacidade de Doka em criar refrãos que não desgrudam e de sempre conseguir voltar para o tempo certo do beat, mesmo rimando acelerado ou não, são atrativos do trabalho. O convidado conta ainda com produção de duas outras faixas no disco e nenhuma delas foge do que é esperado num projeto de Sidoka. ‘Fecha a Cortina’ é uma faixa carregada muito pelo speedflow e as inflexões do rapper por toda batida, um trap com pianinho e violinos, 808s potentes e hi-hats clássicos do estilo.

Já ‘Se Eu Abrir Minha Shoulder’ é a tão esperada colaboração entre o mineiro e provavelmente o nome mais importante do trap nacional: Raffa Moreira. Não que a essa altura do campeonato o anfitrião precise desse cosign, mas poder ouvir os dois juntos é como o Natal chegando mais cedo para fãs de trap. Só que nesse caso o presente que Papai Noel trouxe foi um beat de trap formulaico e versos ok de artistas capazes de entregar algo maior.

E já que estamos falando das participações, é preciso destacar a performance do rapper Dogor em ‘Preciso’ e de MC Anjim em ‘Camiseta Cara’. Enquanto a primeira conta com uma produção mais pesada e soturna permitindo a Dogor uma entrega mais agressiva, a segunda tem um beat com influências de bounce music (principalmente no padrão e na modulação dos graves) dando espaço pra uma entrega mais arrastada para Anjim (e também para Sidoka). Já em ‘Atestado Médico Falso’ a participação do rapper Pexande é esquecível, assim como o beat da música, um clássico exemplo de “Sidoka type beat”.

Aliás, é principalmente nas faixas em que o MC não aparece sozinho que notamos esse seu tipo característico de fazer música transparecer de maneira exagerada. Sem créditos disponíveis na internet para a maioria dos instrumentais do disco, é provável que muito tenha sido feito internamente com a sua equipe. Por outro lado, é nas tracks em que ele precisa levar a faixa sozinho que vemos o mínimo de diferença do que já foi feito em outros momentos: ‘N Leva a Mal’ é um drill animado (afinal, Sidoka iria pular nessa onda uma hora ou outra) e divertido, com flows bem utilizados, enquanto ‘Ey’ é um misto de trap com dancehall, criando uma atmosfera agitada, apesar da aparência de ser uma música mais lenta.

‘Envelopa’ é talvez a faixa com mais cara de Sidoka de todo o projeto que consegue não parecer apenas uma repetição de trabalhos passados, sustentando-se por si só. As linhas muitas vezes absurdas da música, quando se misturam com a levada criativa, quase sorridente do MC, são transformadas em pérolas cômicas que te guiam mais para a confusão do que pra raiva (como as hilárias, “Não é natal mas ela decora meu tronco” ou “Nesse guarda-chuva só cabe eu / cê vai tomar chuva / problema é seu”). Ainda assim não são todas que conseguem ultrapassar essa barreira do absurdo e soam apenas muito ruins (não, eu não quero ouvir o Sidoka rimar “te molho de qualquer jeito / Gorgonzola no seu peito”).

No fim do álbum existe também uma curta tentativa de uma narrativa entre faixas. QUEM É ELA, PT. I e ELA NEM ME VIU, PT. II são duas fases de uma história entre o artista e uma mulher. Mas o que se passa no relacionamento entre os dois? Difícil saber com a forma que o MC conta a história, utilizando frases desconexas de relacionamento, ora de amor, ora de tristeza. O refrão mistura frases de bragadócios com uma pincelada rápida da temática feminina das músicas. No fim, não temos nem um nem outro: o conceito se perde e a música mal diverte, perdida entre o que ela é e o que o artista queria que ela fosse. E a única coisa que une as duas músicas (além do nome) é o uso do mesmo loop no divertido, mas previsível, instrumental.

Ainda assim, a fraca tentativa na criação do conceito dividido entre duas faixas para falar de amor chama mais atenção que a entediante ‘Vitrine’. Utilizando flows extremamente similares aos seus mais antigos e com uma participação pouca inspirada de Chris MC (incluindo uma sequência de rimas “louca/boca/roupa/pouca”), a música não chama atenção nem pelo beat divertido de trap, com um baixo constante providenciando uma vibe mais dançante para a música, ficando apenas a sensação de que ele foi mal aproveitado.

Já ‘Hoje’, a Bonus Track que encerra o disco (e com créditos de produção indisponíveis em qualquer lugar da internet), é uma das poucas músicas REALMENTE intrigantes do projeto. O loop de guitarra sobre uma batida EDM com uma leve influência de house ao ser misturada com alterações vocais (e loops tirados da própria música), e a habilidade de fazer refrão de Doka mostram um nível de leveza e liberdade que o artista há muito não vinha mostrando. A participação de Zemaru é boa, mas fica um pouco ofuscada diante da performance vocal criativa do dono da faixa. A posição de “bonus track” para uma música mais diferente das outras a deixa em uma posição confortável: caso seja só um extra feito de maneira aleatória e sem pretensão, não vai fazer diferença por estar nessa categoria, mas, se é um sinal de uma tentativa de se arriscar algo novo, pode representar uma possível renovação de um artista que claramente ainda tem muito a oferecer.  

SHH…, apesar de um disco divertido, baseia-se apenas na boa performance do artista dentro da sua área de conforto, entregando músicas que não surpreendem ou chamam a atenção mas que também não causam uma reação negativa. A voz errante e única de Sidoka ainda é capaz de fazer com que ele se destaque mais do que os artistas dentro da sua bolha, e a criatividade em suas rimas internas faz com que o ouvinte seja capaz de ignorar que o MC está falando quase nada de diferente do que todos os outros ao seu redor.

Foi seu flow e sua entrega que trouxeram o rapper até aqui, e com o nível que ele alcançou e capacidade que suas habilidades tem de fazê-lo continuar relevante, é difícil ver um futuro próximo em que esse mesmo flow e entrega o levem em frente por mais uns anos. Mas hoje, já não existe mais mistério da experiência que se vai ter ao ouvir Sidoka. E se não existe mistério, sobram apenas dois caminhos: previsibilidade ou criatividade.

Melhores Músicas: Camiseta Cara, N Leva a Mal e Hoje