Review: Pineapple, BK’, Djonga e Froid – Egito [Playlist]

Impossível não prevalecer um enorme sentimento de "Então era só isso?"

A geração que viveu a exponencial expansão do rap nacional há mais ou menos cinco anos se divide em dois grupos: de um lado, há os que acreditam que os tempos áureos, de alguma forma, ainda não terminaram e que seus precursores ainda vivem os seus auges no topo do jogo; do outro, alguns poucos possuem uma boa dose de realismo em seus saudosismos e entendem que há muito tempo o cenário não é mais o mesmo e que seus ídolos, em maior ou menor medida, sofrem as consequências dessas mudanças. Mas, voltando aos bons tempos, com o ano lírico batendo à porta, surge o que seria a maior produtora de rap do país, a Pineapplestorm, em sua estreia meteórica com Poetas No Topo, título e projeto bem mais modestos do que existem hoje com as versões e subversões de “3.3-parte-3-seção-5-capítulo-4-versículo-3” nos quais a produtora tenta estender a relevância; não, trata-se de um tempo mais simples, quando, se você era um MC que participou destas primeiras e bem sucedidas versões e não tem uma carreira no mínimo razoável atualmente, é porque alguma coisa errada aconteceu.

Fato é que Bk’, Djonga e Froid estavam lá (com o último apenas um pouco atrasado, sendo um dos protagonistas da sequência de sucesso) e todos os três souberam muito bem usar desta popularidade criada pela marca do abacaxi para impulsionar ainda mais suas carreiras já promissoras. É por causa disso tudo que, em 2021, surge Egito, projeto que reúne esses quatro grandes nomes para tentar provar que o hype e as expectativas criadas desde o seu anúncio, em abril do mesmo ano, seriam de fato alcançadas. O problema é que, ao final dos lançamentos feitos durante algumas semanas, pouco se absorve do trabalho além do fato dele ter sido uma playlist de cinco músicas com três MCs respeitados que viajaram para um país mediterrâneo para gravar clipes em frente a pirâmides.

A primeira questão está no formato, vendido como EP nas redes sociais, porém organizado como uma playlist no streaming. Nesse sentido, a segunda definição parece mais justa já que EPs prototípicos apresentam entre 4 e 6 faixas e até aí tudo bem, porém, quando possuem, costumam ter um (no máximo dois) singles e, quando bons, apresentam algum conceito ou propósito coesivo para conduzi-lo, e é nesses dois últimos pontos que a definição começa a fazer água. O trabalho foi lançado mais como uma sequência de singles da produtora, não há uma data de lançamento que represente a consolidação do projeto e que apresente algum material novo não lançado. Além disso, nenhuma das cinco faixas compõem uma coesão bem estabelecida, a não ser pelo audiovisual nos começos e finais de cada vídeo, que não estão presentes nos sons propriamente ditos. Com tudo isso, talvez seja a hora de se considerar de fato esta não tão nova modalidade de lançamento e seguir a própria estrutura de compilação sugerida pela marca, uma playlist.

Se no macro as faixas pouco se conectam, quando olhadas individualmente esse problema se espelha na participação de cada MC. Na maior parte do tempo, não há uma unidade entre o trio, cada um foi chamado para deixar um verso característico seu e sustentar um refrão (Froid entrega dois), no geral, são sons que mais se parecem drops de um pequeno Poetas ou um Poesia, onde cada MC vem, faz o seu e passa a bola para outro metodicamente. Essa assimetria é vista em vários níveis: Froid, tanto em ‘Nasci pra ser Grande (Tributo F.R) ‘ quanto em ‘Radin’ (os dois primeiros singles por ordem de lançamento), destoa do restante quando parece ter seus vocais captados ou mixados de forma diferente dos demais, sua voz é abafada como se estivesse gravando em um microfone de mão unidirecional; BK’, com exceção de ‘Radin’ e ‘Esquema de Pirâmide’, constantemente parece perdido, suas pausas e acentos não acompanham o beat, dando a impressão de que o MC está fazendo mais um freestyle do que propriamente tentando rimar em cima dos instrumentais produzidos, isso não teria muitos problemas se não resultasse em deslizes de métrica, rimas que surgem fora do compasso para garantir uma recorrência sonora e performances truncadas. Djonga é o mais constante nesse sentido estético, entrega na grande parte o que a música pede, tentando acompanhar com variações de flows e entonações os diferentes beats e reajustando suas linhas na métrica. No entanto, seu problema é outro, a composição.

O criador de Nu, apesar de abordar temas raciais e sociais relevantes, apresenta uma composição bastante inconstante, com acertos muito bons (Toquei o coração que ‘tava atrás da balaclava/ A bala que cravou meu amigo tinha endereço) e erros capitais (Eu sou a nova variante do vírus que eles quiseram extinguir da Terra).  Além disso, é admirável o esforço que o MC mineiro imprime ao tentar emplacar alguma linha sexual no mínimo questionável, seja com um assunto crítico relacionado à política, um simples braggadocio ou, principalmente, uma lovesong. Nela, ‘Lugar Bacana’,  Djonga enfim acerta em cheio e, em um esquema ABAB, entrega uma de suas linhas mais vergonhosas em tempos: “Eu sei que você gosta mesmo é do meu esguicho”.

Froid possui uma composição coadjuvante como um todo, sua entrega melódica o favorece no refrão de ‘Nasci pra ser Grande’ e o arrasta na lenta e sofrível ‘Lugar Bacana’. Nos versos, sua caneta é prolixa como de costumes em um retalho de referências que podem até fazer sentido em algum nível, mas que passam batido pela pretensão excessiva que carregam; seu ponto mais forte está nas sílabas e suas sonoridades, com elas, o MC de Oxigênio consegue entregar as rimas mais originais do projeto:

Meu mano entocado no morro, lotado de grana, ai-ai
Fugitivo tá sempre de mudança, que vida cigana, ai-ai
Uma vez já é o suficiente, vocês não me enganam mais
Ai-ai, inimigo que cruza meu caminho cai
Vai no baile usando Oakley, sai do baile de Evoque
Munição no porta-copo
Tem no bolso e no revólver
Não importa, é o protocolo

Por fim, BK’ é o que traz um conteúdo autoral mais afiado se você esquecer a lovesong citada, onde o rapper do RJ se perde em uma escrita desinteressante e monossílabos preguiçosos. Em boa parte do tempo o autor de OLEM, seguindo sua característica mais forte, é o que mais tem algo de substancial a dizer, mantendo um mesmo assunto por mais tempo em suas linhas, como se estivesse conversando com o ouvinte.

Passando à produção de Malak, JXNV$, Slim Beats e Froid, a questão maior é de adequação do que de qualidade. Quando produtores e MCs vão para o mesmo caminho, há bons resultados: ‘Radin’, um engenhoso trap de cordas não usuais e graves que demarcam o bom refrão, dá espaço para os MCs trabalharem flows interessantes que lembram algo do funk do início dos anos 2000, esta, inclusive, é a track de coesão mais forte, fazendo um diálogo sobre a curtição e a realidade nos morros; outro bom exemplo é o simples porém eficiente loop de ‘Esquema de Pirâmide’  e seu drill faraônico que, apesar de um show de referências rasas e estereotipadas sobre a cultura egípcia, é palco para boas performances de BK’ e Djonga, sendo a vez de Froid parecer deslocado com seu “typeverso”.

Agora, quando o dedo da Pineapple surge, traz com ele os problemas. O acústico do primeiro single só se justifica no refrão em tributo a Ret, no mais não bate com a atmosfera dos artistas; ‘Lugar Bacana’ é um case de insucesso para o poprap: lento, apático, genérico e esvaziado; por último, ‘A pior música do ano, pt. 2’ é o maior dos sacrilégios, longe de ser o boombap cru de 2016, personifica o mal envelhecimento da geração do ano lírico com uma espécie de rockrap que quer muito ser underground mas sua mãe não deixa. O som original, de Froid e Djonga, era subversivo, ácido e sujo, tudo o que a Pineapple não pretende ser com a classificação etária e a diversidade do seu público atual.

Egito possui um alvo muito claro, o primeiro grupo de fãs mencionado na introdução desta review, que constitui uma parcela significativa do público do abacaxi. Reuniu os três maiores de sua geração e contou com as boas memórias dotadas de parcialidade dessa parcela de ouvintes, sendo assim, para esses, um sucesso absoluto, e há valor nisso. Por outro lado, qualquer integrante do segundo grupo, que busque conter um pouco o saudosismo, verá os inúmeros problemas dessa playlist. O curioso é que, dado os grandes nomes envolvidos e o alcance enorme da produtora, o modesto rollout do projeto nas redes sociais já antecipava a qualidade não alcançada do trabalho, sendo impossível não prevalecer um enorme sentimento de “Então era só isso?”. Um contexto exótico, uma viagem para o Egito e um punhado de singles com metáforas e trocadilhos previsíveis sobre pirâmides, desertos e faraós. Sim, era só isso.

Melhores músicas: Radin e Esquema de Pirâmide