Review: Lil Nas X – Montero

Confiante, mas ao mesmo tempo honesto, o álbum deixa bem claro: Lil Nas X veio pra ficar.

Para alcançar um mínimo de relevância na cena, é preciso acertar ao menos um hit. O tamanho dele pode variar, dependendo de quais são as ambições artísticas e comerciais do artista, mas é através do hit que o seu trabalho chega aos ouvidos que não fazem parte da sua bolha. Quando se trata de Lil Nas X, é óbvio que estamos falando de ‘Old Town Road’, single que por 19 semanas se manteve no topo da Billboard Hot 100, além de faturar 2 Grammys no ano de 2020. Mas, com a mega popularidade alcançada, também começaram as acusações de que ele seria só mais um one hit wonder.

2 anos depois, e é nítido como a maioria delas é infundada. Seus últimos singles obtiveram ótimos desempenhos nas paradas musicais, sua performance continua sendo elogiada por inúmeros artistas (de dentro e fora do rap), e, acima de tudo, ele tem sido ovacionado por discutir abertamente sobre o quanto a homofobia continua presente no rap. E é diante desse misto de rejeição individual e artística e ascensão profissional que nasce Montero, seu álbum de estreia. Confiante, mas ao mesmo tempo honesto, ele deixa bem claro: Lil Nas X veio pra ficar.

Como já se espera de um álbum de um artista global, a produção do trabalho -arquitetada majoritariamente por Omer Fedi e pela dupla Take a Daytrip é bastante diversa, explorando as baterias do trap e as progressões do pop com elementos do R&B e do hard rock para dar o máximo de fluidez para a entrega melódica de Nas X. Isso se paga na maioria dos casos, pois o rapper e cantor já demonstra conforto em impostar sua voz tanto em notas graves como agudas, mas há passagens onde essa performance não parece buscar algo além do que já é oferecido no pop atual. Se o objetivo do disco é apresentar outras facetas além da de exímio hitmaker, podemos dizer que existem pelo menos mais 2: a que busca narrar a própria história, contra todos os “nãos” que ele ainda recebe; e a que se diverte fazendo um mais do mesmo bem feito.

Não são raros os momentos em que elas andam unidas, e faixas como ‘Industry Baby’ ou ‘Don’t Want It’ são os melhores exemplos disso. Na previamente lançada, Nas X e Jack Harlow se aproveitam do enérgico trompete do beat para ostentarem a confiança que possuem acerca do estrondoso sucesso que ambos alcançaram, não se preocupando com buxixo que isso costuma causar (“I don’t clear up rumors, where’s y’all sense of humor?”). ‘Don’t Want It’, por outro lado, se mantém numa atmosfera mais contemplativa ao comparar os tempos em que o rapper era apenas uma fan account do Twitter com o seu eu superstar da música. As duas apresentam propostas distintas, mas carregam refrãos que definem bem o clima de superação pessoal que as demais tracks aprofundam ou pincelam

I told you long ago on the road

I got what they waiting for (I got what they’re waiting for)

I don’t run from nothing, dog

Get your soldiers, tell ’em I ain’t layin’ low (Bitch, I ain’t runnin’ from nowhere)

You was never really rooting for me anyway (Ooh, ooh)

When I’m back up at the top, I wanna hear you say (Ooh, ooh)

He don’t run from nothin’, dog

Get your soldiers, tell ’em that the break is over (Yeah)

 

Já nas faixas que tentam responder quem é Montero Lamar Hill – seu nome verdadeiro – por trás dos holofotes e roupas extravagantes, temos ‘Dead Right Now’, descrevendo sua conturbada relação familiar e as cicatrizes que elas deixaram. Essa temática também é retomada em ‘Tales Of Dominica’ e ‘Sun Goes Down’, com as duas usando melancólicos acordes de violão e violino para acompanharem o rapper cantando sobre a solidão que a falta de apoio e o anonimato empurram num jovem que decidiu viver da música. Mesmo nas lovesongs menos inspiradas, como ‘That’s What I Want’ e ‘Lost In The Citadel’, há pelo menos uma ou outra linha comentando sobre sua busca em se conectar com o outro. Por conta disso, muitas das autoafirmações acabam ganhando uma camada a mais; por vezes até soando catárticas.

Ainda na porção confessional do trabalho, temos em ‘One Of Me’ uma ótima interpretação do rapper sobre as exigências que seus desafetos fazem sobre a forma que ele se expressa. O piano de Elton John é bastante contido, se destacando apenas durante a saída, mas consegue ornar bem com os sintetizadores soturnos e a entrega do anfitrião, que mesmo esbanjando variações de flow e modulações de voz, ainda soa frustrada por ainda ter de responder às mesmas acusações que recebeu desde o sucesso de seu primeiro hit. De todas as composições que abordam a sombra que ‘Old Town Road’ deixou sobre sua imagem, essa é de longe a mais impressionante.

You’s a meme, you’s a joke, been a gimmick from the go

All the things that you do just to get your face to show

Oh, you think you big shit, big pimpin’, let me know

Ain’t the next big thing, you the next thing to go

Passada toda essa introspecção, o que se segue são diversas tentativas de explorar outras sonoridades além do trap. A que mais se destaca é o pop rock, pelos riffs de guitarras mesclados com as notas mais agudas nos refrãos. O problema é que, como também acontece no pop rock, a maioria das composições apresentam uma certa superficialidade ao falar sobre relacionamentos amorosos. Se Nas X se arriscasse mais durante os trechos rimados, é possível que faixas como ‘Void’  ou ‘Life After Salem’ criassem um bom contraste com a melancolia das músicas que as circundam, mas isso não acontecer faz com que elas só pareçam descartáveis. 

Nos momentos onde o anfitrião só quer retornar a sua zona de conforto, os resultados se mantêm agradáveis. Embora seja uma pena que collab com Doja Cat em ‘Scoop’ explore tão pouco a versatilidade vocal dos dois num beat e refrão tão simplistas, ‘Dollar Sign Slime’ retorna ao bom humor que abre o disco, tanto por apresentar mais um loop com instrumento de sopro quanto pelos bons braggadoccios de Megan Three Stallion (Baby, all these hoes imitate me/ You gon’ fuck a Stan or the real Slim Shady?). Não há muito o que acrescentar, pois são elas que dão o respiro que as lovesongs tentam, mas não conseguem fazer. Surpreendentemente o pequeno dueto com Miley Cyrus faz com o projeto se encerre novamente em alta ao transmitir de forma honesta o anseio de ser eternizado através da arte, e concluir essa que aparenta ser a primeira fase do artista.

Se há uma observação geral a ser feita sobre ‘Montero’, ela seria o quanto ‘Old Town Road’ é revisitada. Por mais que seja compreensível a insatisfação de Nas X ao ser inferiorizado por já ter obtido o que muitos levam décadas para conquistar, é um tanto cansativo retornar ao mesmo foco dramático sem uma trama que o desenvolva para outros caminhos. Tirando isso, a qualidade da performance fala por si só. Não estranhe se você se pegar cantando alguma ponte ou refrão do disco, pois é a acessibilidade o grande trunfo que o rapper tem usado – e felizmente sem abrir mão da própria identidade.

Melhores Faixas: Dead Right Now, Industry Baby e One Of Me 

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