Review: Cesar MC – Dai a Cesar o Que É de Cesar

Sua vitória não terminou nas batalhas

Dos nomes recentes que alcançaram notoriedade no Duelo de MCs Nacional, Cesar sempre demonstrou ser um rapper comprometido com pautas que ultrapassam as batalhas. Não que os outros não sejam, mas, em tempos onde o culto à personalidade se torna cada vez mais a norma do rap, é bom ver pessoas autoconscientes de seu impacto mantendo o pé no chão. Longe das tretas e do lifestyle fake, ele se manteve relevante mesmo tendo um número reduzido de singles solo e agora nos entrega seu primeiro disco, Dai a Cesar o Que É de Cesar, provando antes de tudo que sua vitória não terminou nas batalhas.

O trabalho comenta diversas pautas debatidas atualmente, indo das mais urgentes (como a violência resultante do racismo estrutural e o elitismo numa parcela da esquerda) às mais deturpadas (como ‘lugar de fala’ ou ‘polarização política’), mas o tema recorrente é o uso da religião enquanto legitimadora da opressão. Por ser um rapper evangélico, a maioria dessas críticas ganha mais camadas além do típico “nós x eles”, e são nesses momentos onde o MC mais parece ter algo a dizer. Mas o que arranha o projeto é a falta de aprofundamento nessas temáticas, onde não basta apenas uma boa resposta.

A faixa-título cai um pouco nesse deslize. Ela começa com uma excelente interpolação de trechos da Epístola de Tiago, já servindo como fundação para todas as questões religiosas trazidas no projeto, e assim que a introdução termina, o rapper já se apressa a puxar diversos assuntos relevantes (Eu tô pouco me lixando pro seu TCC/ Que romantiza e menospreza a vivência da favela/ Roubando o lugar de fala pra se autopromover), mas logo retorna ao ponto de partida para uma segunda ou terceira abordagem. A entrega se manter agressiva do começo ao fim até consegue transmitir a urgência deles, mas vai se tornando cansativa conforme os temas vão se tornando secundários. Poderia-se argumentar que ela serve como uma demonstração dos caminhos que Cesar seguirá nas demais faixas, mas isso se repetir em outros momentos faz com que a ideia soe menos proposital do que deveria. 

Nesse sentido, talvez tenha sido um erro a produção de Tibery e Artioli ter apostado tanto numa estética minimalista, pois há momentos em que o contraste entre a suavidade melancólica do beat com a performance rasgada do MC não tem muito impacto. ‘Pretinha’  é uma das poucas exceções onde Cesar apenas acompanha o tom do instrumental, e de quebra ainda é a faixa que melhor evidencia o quão complexa é a relação entre as ramificações cristãs e a periferia, descrevendo a Bíblia de forma semelhante a uma canção romântica, mas a escolha de um loop de violão suave por toda a faixa faz com que a surpresa perca o seu potencial. É como se a faixa tentasse demonstrar a devoção de Cesar pelos ensinamentos bíblicos, mas não quisesse abrir mão do seu apelo comercial.

Dito isso, existem acertos que merecem atenção. O primeiro deles é ‘Neguin’, onde Cesar e Djonga discorrem sobre como o sucesso dos dois já contraria por si só a máxima racista que todo preto já deve ter ouvido (só mais um neguin). Assim como em ‘Antes Que a Bala Perdida Me Ache’, com participação de Emicida, é o anfitrião quem começa a rimar, dando a sua perspectiva ainda em desenvolvimento sobre o tema, para que seus veteranos a complementem com as certezas que já obtiveram. Numa comparação verso a verso, é óbvio que as participações se sobressaem, mas o esforço de Cesar em se manter coeso no que as tracks propõem faz com que elas sejam interessantes em sua totalidade. 

Eu lavei o mundo, comprei as louça

Ensinei tanto pros meus que perguntaram: “Professor, cadê a lousa?”

E ensinei tanto pros meus

Que os boy ficou sem argumento de ver nós chegar sem bolsa

Poder, respeito, papo reto e disposição

Se eu fosse Yakuza, tinha todos os dedos da mão

Onde eu nem era convidado, sou anfitrião

No português claro, nós é o sim em meio ao não, ahn

Destaque para a impressionante saída de Cesar, no final de ‘Antes Que a Bala Perdida Me Ache’, que retoma a sua reconhecida habilidade na palavra falada para concluir o raciocínio indignado que é destrinchado nos versos anteriores. Por não se ancorar tanto na agressividade e carregar uma certa vulnerabilidade na voz, ele acaba sendo o momento mais memorável do disco.

Costa Barros, coincidência, Guadalupe, coincidência

Mesma cor em incidência, na terra das coincidências

Preto é sempre cor tendência pra essa fria sentença

Que não busca um ponto final, vai cooperar com as reticência

Abolição foi só um durex na vidraça

Com bilhete sem graça dizendo que a vida continua

E meritocracia é só uma farsa

Que te faz pensar que se a janela tá quebrada, a culpa é… sua

 

‘O Boombap Não Morre’ é a famosa ode a vertente que todo rimador já fez alguma vez na vida. É estranho ela estar em meio a duas faixas tão soturnas, mas tirando isso é a que mais justifica a energia do MC ao cuspir cada barra, principalmente nas barras finais de cada verso. O instrumental mais uma vez é pouco chamativo, e o refrão poderia se manter constante na cadência para manter essa energia do começo ao fim, mas o saldo final é positivo. O mesmo não pode ser dito sobre ‘Navega’, faixa de encerramento que quase passa batido em relação a tracklist, mesmo ela arriscando um flow um pouco mais melódico nos sintetizadores elaborados por Artioli e Tibery. Ela apresenta boas aliterações e transições de rima aqui e ali, mas a maioria das linhas ainda soa bem superficial, quando se pensa no que elas querem dizer (O pior ignorante é o que jura que sabe/ A mais suja das mentiras é meia verdade). O mais incômodo é que ela não conclui praticamente nada do que foi apresentado até aqui, seja respondendo alguma questão ou pelo menos sendo interessante nos seus próprios termos.

Por conta disso, é uma pena que ‘Eu Precisava Voltar Com a Folhinha’ não encerre o projeto. Considerando que ela traça toda a trajetória de Cesar até a sua vitória no Duelo de MCs Nacional (inclusive interpolando linhas que ele mesmo usou durante as batalhas), ela seria uma ótima forma de encerrar esse capítulo, e dar espaço para os próximos que virão. Até a segunda faixa começar com uma introdução e a última ter uma abordagem mais leve dão a impressão de que a ideia teria sido considerada no processo, mas descartada algum tempo depois. Quanto ao som em si, ele segue aquela proposta motivacional que nomes como Projota ou o próprio Emicida já tiveram no passado, mas girar em torno de um acontecimento específico é o que faz com que a sua identificação tenha substância. Sua maior ressalva se encontra nos trechos cantados, que ainda não dialogam bem com a rispidez de sua lírica. 

No fim, Dai a Cesar o Que É de Cesar pode não ser a mais sólida das estreias do ano , mas é um trabalho que já consegue demarcar o que Cesar pode oferecer em seus próximos trabalhos. Ainda é preciso um bom direcionamento temático nos assuntos que ele quer trazer à tona, em especial nos que ele também percebe serem mais amplos do que as redes sociais fazem parecer, mas dessa nova geração, ele é um dos que mais demonstra interesse em correr atrás. Não é à toa que muitos de seus contemporâneos o admiram, pois ele continua trilhando um caminho que muitos já abriram mão. Potencial para entregar algo excelente, ele tem.

 

  1. Parabéns pela análise, hoje no Brasil é difícil achar alguém que aponte as qualidades e defeitos da música e analise com profundidade os versos, cadência, temática e etc.
    Vejo um certo medo e receio do público em geral, pois qualquer crítica minimalista já é vista como “desmerecer” o trabalho.

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