Review: Drake – Certified Lover Boy

O álbum enfrenta uma grande falta de foco, e isso tem um motivo: Kanye West

Não existe discussão sobre qual o maior nome não só no rap,  mas na música como um todo, nos últimos anos: Drake. O rapper canadense surgiu como um fenômeno desde seus primeiros trabalhos, tornou-se o artista mais popular do rap e em seguida o mais bem sucedido comercialmente da música pop, acumulando recordes a cada lançamento. O único contra é que ao mesmo tempo que seu sucesso se expandiu para além do rap, questionamentos começaram a surgir mais e mais acerca da qualidade e originalidade de sua música, com seus últimos trabalhos, apesar de melhores números, tendo recepções sempre piores do que seus anteriores. Vindo em uma sequência de bons lançamentos, Certified Lover Boy parecia ser a cartada de Aubrey Graham para virar esse jogo, unindo o sucesso em suas duas facetas.

Pela primeira vez em sua carreira, Drake assumiu uma persona durante o pré-lançamento do disco. O infame coração desenhado em seu cabelo, o próprio título do álbum e fotos românticas indicavam um ar muito promissor ao projeto: o artista estava abraçando o meme pelo qual sempre foi zoado ou criticado, colocando tons irônicos em sua abordagem ao mesmo tempo que isso o levaria a exposição do seu lado emocional com maior tranquilidade e profundidade. No entanto, todas essas expectativas foram quebradas quando o disco chegou, pois aparentemente Drake gastou toda sua energia no rollout e não sobrou nenhuma para as novas músicas.

Era possível começar dizendo que o álbum é tedioso, mas na verdade até o próprio Drake soa entediado. A falta de energia do artista durante todo o disco é ainda pior do que a vista em Views, colocando uma track mid-tempo sobre a outra, com pouquíssima variação além dos feats. Para além da questão comercial, não há razão para se ter 21 músicas num projeto se dentre elas estarão tracks como ‘Fucking Fans’ ou ‘TSU’, onde o MC, além de uma escrita extremamente tóxica, não mostra nada de interessante para manter um ouvinte engajado; nem a mudança de beat empolga o delivery ou a caneta do artista. É impensável que um verso como o escrito em ‘Way 2 Sexy’ tenha sido feito por um artista realmente dedicado à sua obra.

A caneta de Drake, diga-se, está mais desgastada do que nunca. Apesar dos ataques por conta do uso de ghostwriters, o principal diferencial do MC no início de sua carreira foi a capacidade de colocar os sentimentos e a vulnerabilidade de forma comovente em suas letras, mas aqui a persona de lover boy raramente aparece e, quando o faz, não há nada que não tenha sido dito. Ao contrário do que foi feito no início do álbum, nada aqui soa irônico ou amadurecido. Por outro lado, Drake sempre teve escorregões no cringe, e aqui eles aparecem com mais frequência. ‘Pipe Down’ é outro grande exemplo disso, onde o cantor relata uma relação com uma pessoa vulnerável financeiramente próxima a ele (So I don’t get how you’re yelling at me/How much I gotta spend for you to pipe down?), semelhante a outras tracks no mesmo disco, e a outras no disco anterior e em todos os anteriores. O X da questão desse álbum é que Drizzy zoa estagnado, e não há nada que diferencie ele, como pessoa e como artista, do que o público já viu nos últimos 12 anos.

O álbum, verdade seja dita, tem um bom início e um bom fim. Aubrey sempre foi conhecido por boas intros e aqui mais uma vez não deixa a desejar em ‘Champagne Poetry’, apoiado totalmente num lindo sample cantado com o MC dando uma atualização de seu estado mental. A tracklist segue por um caminho interessante, embora fora do script romântico, com ‘Papi’s Home’, canção onde Drake se coloca de forma muito interessante como o ‘pai’ dos novos rappers, falando sobre sua influência musical e sobre quanto os novos artistas não conseguem aguentar ele. A faixa se desenvolve sobre um sample muito bem construído e um beat de trap mais dinâmico, e os flows do artista são encaixados com perfeição. O conceito da track casaria perfeitamente com Nicki Minaj, e é estranho e uma pena que ela apareça apenas para uma passagem falada e sem um verso na sequência, o que seria uma finalização perfeita. Esta track, porém, envelhece muito mal pelo que vem a seguir: Drake é ofuscado sempre que aparecem feats, sendo muitos deles mais novos e até influenciados por ele.

‘Girls Want Girls’, o provável hit do disco, tem Drake pela primeira vez (de muitas) fazendo com que o ouvinte tente se lembrar da idade dele. É difícil de entender como um homem de 36 anos acha de bom gosto escrever say that you a lesbian, girl, me too”, uma piada velha até para seu tiozao do zap favorito. Não ajuda que quase todo o resto da track seja descartável, com uma performance pouco cativante de Drake, claramente buscando apenas o melhor refrão em um beat de trap totalmente sem sal. “Quase” porque Lil Baby aparece na segunda metade dando sequência a sua incrível forma, aceitando o desafio do péssimo tema da música e matando com seu melhor flow e energia lá no alto. O mesmo acontece na sequência com ‘In The Bible’, seguindo com um beat que melhora um pouco pelas baterias mais pesadas, mas com nada na performance de Drake para chamar a atenção, esta é roubada por um excelente verso de Lil Durk que domina o beat e no final pela cativante performance de Giveon.

O anfitrião só se destaca perto de seus feats quando eles são discretos demais para chamar a atenção, mais especificamente Ty Dolla $ign, ocupando seu típico lugar de apoio em ‘Get Along Better’, e  Future em ‘N 2 Deep’, que talvez seja a pior colaboração entre os dois. Todos os outros feats superam Drake no disco, em algumas ocasiões sendo ainda o fio que conduz a música e mantendo Drake como uma nota de canto. Ele inclusive faz as pazes com Kid Cudi em ‘IMY2’, uma faixa que parece mais um descarte do último disco do convidado, que domina a maior parte da alongada canção de performance mediana e sem nenhum tipo de química entre a dupla. Na péssima ‘Way 2 Sexy’, mais uma que te faz checar a idade dos envolvidos, Future é a única coisa boa na faixa e Young Thug não atinge a energia necessária para ser interessante, track muito pior que a boa ‘D4L’ de Dark Lane Demo Tapes. Aliás, incrível como um disco de demos supera com facilidade o grande trabalho do MC (semelhante ao que aconteceu em 2015/2016).

Seguindo nos feats, Travis Scott dá seu melhor verso em muito tempo em ‘Fair Trade’, uma das raras boas músicas,  exercitando seu lado de rimador muito bem. O melhor claramente é o convidado, mas Drake até tem uma boa performance na track, com excelente refrão em escrita e performance. ‘You Only Live Twice’ é um posse cut divertido, com Rick Ross, Wayne e Drizzy mandando versos sem um foco claro, sendo 3 boas-mas-não-ótimas performances. O mesmo não pode ser dito de ‘Love All’, faixa onde o refrão e verso do anfitrião claramente deveriam ser mais trabalhados, sobretudo quando você leva em conta que o convidado é Jay-Z, que entrega barras e mais barras em cima de um beat que também poderia valer-se um melhor acabamento. ‘Knife Talk’, por outro lado, só vale a pena pela participação de Project Pat, que faz muito bem a intro e depois some para participações fracas de 21 Savage e Drake.

O álbum enfrenta uma grande falta de foco, e isso tem um motivo: Kanye West. A briga entre os dois foi revivida no último mês e claramente CLB recebeu ajustes por conta disso, e se o projeto é iniciado com falas de quem está despreocupado, o resto do trabalho mostra o oposto. Drake sempre foi um “fake tough guy”, mas depois da humilhação sofrida para Pusha-T isso simplesmente não cola mais. Por outro lado, a briga deu ao artista sua única temática interessante. ‘No Friends In The Industry’ é a faixa mais energética do disco, embora soe muito falsa (como o maior artista do mundo vai considerar que a indústria o prejudica?); ‘7am On Bridle Path’ é a melhor faixa de todo o trabalho, seguindo o grande sucesso da serie AM/PM de Drake em seu modo diário de bordo, sendo praticamente uma diss para Ye com diversas boas linhas e ataques relativamente corretos, além de um belíssimo instrumental com um sample de coro.

A última faixa, ‘The Remorse’, é um retorno ao modo diário de bordo, com mais um beat contido com sample de soul (algo que aparece mais do que nunca no álbum), sobre o qual Drake tem sua melhor performance lírica, colocando barra atrás de barra. O problema é que, entre as duas últimas destacadas, temos um grande número de faixas românticas superficiais, sem gosto e sem originalidade. Durante todo o disco, o mais perto de experimentação foi o dancehall em ‘Fountains’, algo que ele já fez antes, e nessa o anfitrião é completamente apagado pela participação de Tems, que é muito mais confortável no ritmo.

Nada nesse álbum mostra evolução, amadurecimento, criatividade ou qualquer adjetivo semelhante. O Drake de 2016 ou de 2018, que já não eram tão inspirados, poderiam fazer tudo que é feito aqui. Quando Views foi lançado, era o pior álbum de Drake. Depois veio Scorpion, que se tornou o novo pior álbum de Drake. Ainda menos enérgico e inspirado que os dois, Certified Lover Boy toma agora o posto de pior álbum de Drake, e a progressão de sua carreira indica que esse lugar será perdido no próximo lançamento. Resta saber quando os números vão seguir a mesma curva.

Melhores músicas: Fair Trade, 7am On Bridle Path, The Remorse