Review: VND – Eu Também Sou um Anjo

Com uma ideia por trás e a capacidade de explorá-la através da sua caneta, VND mostrou em seu disco de estreia uma boa capacidade de amarrar conceitos

A década de 60 foi uma época violenta da história brasileira. Entre os tanto que viveram (e morreram) lutando contra os ataques militares nos anos que sucederam o golpe de 1964, um dos que participaram ativamente de movimentos de guerrilha populares foi Avelino Capitani, marinheiro gaúcho (mas morador do Rio de Janeiro), famoso pela sua pistola de calibre 45 e pelo seu codinome, “Charles”. Meio lenda, meio fato histórico, Avelino ganhou fama poética quando virou canção de Jorge Ben. “Charles, Anjo 45”, lançada em 1969, transforma o herói em um preso político negro e da favela (temas centrais da discografia do cantor carioca), “Protetor dos fracos/ E dos oprimidos/ Robin Hood dos morros/ Rei da Malandragem”.

Em “Charles Jr.”, de 1970, Jorge conta a história do filho fictício de seu personagem. A música, motivada pelo desejo de paz e liberdade, diz “Pois eu já não sou o que foram os meus irmãos/ Pois eu nasci de um ventre livre”. No refrão, o músico canta “Eu me chamo Charles Junior/ Eu também sou um anjo”. Agora, de volta a 2021, VND, rapper também do Rio de Janeiro, canta em busca dos mesmos sentimentos, enquanto retrata a constante violência no seu primeiro disco ‘Eu Também Sou Um Anjo’.

Membro do coletivo carioca Covil da Bruxa, junto de nomes como Tárcis e Leall, o MC despontou na cena do grime e do drill. Mas, assim como seus companheiros de equipe, o rapper mostra versatilidade ao provar que esse não é o único estilo que sabe trabalhar. Logo de cara vemos o foco (e o conforto) que o rapper tem no boombap. Em ‘Gatilhos Invisíveis’, com produção de Luna, VND conta uma história que termina em troca de tiros, utilizando bem moduladores vocais para criar efeito, tudo sobre um instrumental leve e suave, que contrasta bem com a temática da música.

Enquanto a maioria dos beats do projeto são palcos para os flows e rimas do MC, em ‘Sobrevivendo ao Inferno’, faixa que abre o projeto (com clara referência a Racionais), aproveita o instrumental elegante de WavyBil para declamar um bonito poema que introduz o conceito do disco: “Eu também sou o medo de mofar numa cela / O pavor de não completar 18 / É que… Eu também Sou um Anjo”. É do produtor também o instrumental da ótima ‘Alegorias e Adereços’, faixa com toques de trap e de R&B, com loops vocais e solos de guitarra, que servem como fundo para um dos melhores versos do artista, falando sobre altos e baixos de um relacionamento, sem perder o conceito do disco.

E se eu fosse um corpo negro enjaulado

Sem joias, sem grife

Sem os carro alegórico

Preço de não ter nada nas mãos

Metafórico

Mesmo não tendo o ritmo como foco principal do trabalho, o MC não deixou o drill de lado com ‘Runner’, faixa com um bom instrumental de Fyebwoii, que é simples mas bem trabalhado. O conceito de misturar os bpms dos ritmos londrinos com a ideia de correr ser algo extremamente datado na cena (sendo um dos maiores exemplos Running, do paulista Febem) faz com que ela soe um pouco batida. Apesar disso, a faixa tem um propósito na sua existência: ela faz parte da narrativa que VND constrói ao longo do disco

Se ‘Gatilhos Invisíveis’ e ‘Runner’ retratam confrontos com a polícia, VND nos mostra o quão fácil é perder pra ela em ‘Rosto (interlúdio)’, faixa que retrata uma abordagem policial (Quem pisou no seu rosto? / Quem zombou do seu corpo, irmão? / Te incomodam pela manhã / Te olham meio torto). O instrumental lento de boombap, com loops de piano e diferentes elementos percussivos dando complexidade, deixa transparecer a melancolia e sofrimento que o rapper coloca nas letras. Essa sequência inicial deixa clara a forma que o carioca conta uma história ao longo do projeto, amarrando cada vez mais o conceito presente. 

Uma das colas que ajuda na coesão do disco é o uso de suas participações. Leall aparece em ‘Neguin, pt. 2’, seguindo o conceito do projeto: aqui, anfitrião e convidado falam sobre o perigo da vida em fuga (“Nego não bote a perder / Só se fala em você nos jornais”), traçando paralelos com suas vivências enquanto homens negros. O instrumental é o esperado do produtor El Lif Beatz, da Pirâmide Perdida: um boombap de alta qualidade, com um loop de piano meio sombrio e triste. O MC carioca Derxan aparece na faixa que leva o nome do disco, sobre um beat old school pelas mãos de Babidi, trabalhando a ideia central do álbum em um bom verso, que traz as características rimas aliterativas dele.

Sobre um instrumental com influências de trap pelas mãos de Tárcis, VND fala sobre a perspectiva de ir parar na cadeia em ‘Grades, Janelas e Cercas’ enquanto o rapper amazonense Victor Xamã complementa com um dos melhores versos do disco, falando sobre caminhos, levando a uma fuga. E não é apenas na produção que o parceiro de Covil da Bruxa aparece: em ‘Cartas’, com participação (e instrumental) dele e da cantora Amanda Sarmento, a voz do dono da casa e dos dois feats contrastam sobre o beat puxado para o neo-R&B, em uma lovesong complexa e muito bem lapidada. 

É em ‘Passarelas e Vitrines’, com produção de Luna e Babidi, que se encerra a história do personagem de Eu Também Sou Um Anjo. Da troca de tiro em ‘Gatilhos Invisíveis’ para a fuga da polícia em ‘Runner’, passando pelo enquadro em ‘Rosto (Interlúdio)’, a cadeia e a fuga em ‘Grades, Janelas e Cercas’ e ‘Neguin, pt. 2’, o amor perigoso e vulnerável em ‘Alegorias e Adereços’ e ‘Cartas’, até chegar a libertação em ‘Eu Também Sou Um Anjo’, tudo o que o artista nos mostra são anseios, medos e perigos. Na última faixa, VND deixa claro que ele tem tantas respostas quanto qualquer outra pessoa:

Outdoor, comerciais, programas policias

Eu sou vitrine pra quem?

Com uma ideia por trás e a capacidade de explorá-la através da sua caneta, VND mostrou em seu disco de estreia uma boa capacidade de amarrar conceitos, orquestrando seus versos, e deixando esse mesmo conceito guiar o verso de seus convidados. Além disso, mostra versatilidade (e atenção ao seu redor) ao não se deixar prender pelo sucesso cada vez maior do drill e do grime.

No fim, Eu Também Sou um Anjo é uma crônica sobre não apenas uma vida, mas muitas, incluindo a do próprio artista, que enfrenta as dificuldades que ser um homem negro e da favela representa. Inspirado por Jorge Ben, o personagem dele e o de VND podem podem até não ser a mesma pessoa, mas eles e os inúmeros Charles que existem ao redor do Brasil tem o mesmo sonho: liberdade.

 

Melhores Faixas:  “Gatilhos Invisíveis”, “Grades, Janelas e Cercas”, “Cartas”, “Eu também sou um Anjo” e “Alegorias e Adereços”.

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