Review: Iza Sabino – Trono de Vidro

Depois de um 2020 bastante movimentado, Iza Sabino resolve ser mais cuidadosa com seu Trono de Vidro.

Depois de um promissor álbum de estreia, Glória, e ótimos singles lançados pelo grupo Fenda, a Mc mineira Iza Sabino volta aos extended plays. O EP é o terceiro projeto de sua carreira solo, nele a rapper traz uma nova concepção acerca da conquista e manutenção do poder dentro do jogo do rap sendo uma mulher preta e LBGTQIA+, essa mescla temática é responsável por conduzir o trabalho ao longo de suas seis faixas. Quem esperava um próximo passo mais ambicioso pode se frustrar um pouco, depois de um 2020 bastante movimentado, Iza resolve ser mais cuidadosa com seu Trono de Vidro.

Algumas mudanças aconteceram, o monopólio do produtor Coyote foi enfim quebrado e, aumentando o seu portfólio de colaborações pelo estado mineiro, o produtor em ascensão VHOOR assina todas as faixas com exceção da última, entregue nas mãos de SMU, que já colaborou com a artista, junto de FBC, em Best Duo. Em um primeiro momento, trata-se de um acerto, VHOOR vem em uma boa crescente emplacando produções de qualidade no cenário e SMU não foi nem de longe o problema do trabalho em dupla com Fabrício. A produção, em linhas gerais, traz trap, drill e um pouco de funk para compor suas sonoridades, sempre cumprindo a cartilha do que se espera como resultado final desta mistura: graves fortes em 808s, loops de instrumentos de sopro e cordas, baterias de funk, cornetas, FX empolgantes e hi-hats que vão desde os mais variados do trap aos mais retos do drill, enfim, um trabalho de casa bem feito.

Como todo artista que pretende se manter ativo comercialmente no cenário, Iza se atualiza bem ao drill. O EP é aberto com ‘Eu Te Conto’ e a MC chega na variante britânica com bastante força de entrega e alta cadência de rimas. Acrescido a isso, se temos acertos em mudanças, também temos em elementos que se mantiveram, Sabino continua explorando bem suas vozes e variações de flow quando resolve escapar de entregas e ritmos já saturados pelo novo formato, sua segunda voz mais caricata porém na medida certa, quando comparada ao excesso de Best Duo, dá assinatura à track, o que é muito bem vindo.

No entanto, o mesmo não se repete em ‘Paz Terrível’, muito devido às colaborações de N.I.N.A e Thamiris, a track não consegue escapar de uma certa linearidade com flows idênticos e padrões ao drill. VHOOR até tenta quebrar isso, mas suas variações de loop não funcionam aqui, já que este continua sendo repetido à exaustão em um mesmo recorte, variando apenas sua sonoridade. A saída para este dilema foi apresentada na track de início: apostar na musicalidade da anfitriã, porém esta chega tarde demais. Seus adlibs melódicos e extremamente harmônicos, quando surgem, são interessantíssimos e poderiam dar um novo ar à faixa se fossem mais explorados.

Essas estratégias são replicadas e dão certo no trap lento de ‘Como 10 e 10 É 20’, o produtor novamente confia na mudança de pitch do seu sample para conferir variação ao instrumental e Iza Sabino traz boas modulações com adlibs tão distintos e bem encaixados que não parece estranha a ideia de que esteja fazendo um feat com ela mesma. Ainda aqui, uma terceira voz mais sussurrada surge no refrão, a entrega casa bem com os graves e o uso do sample, além de possuir uma virada extremamente chiclete que, dado o relativo silêncio proposital do beat, entram diretamente na mente do ouvinte. Pejota, participação da track, oferece um bom contraponto em uma entrega mais pastosa, porém o mumble, mesmo que não tão acentuado, pode prejudicar um pouco a compreensão do que está sendo dito.

Outro ponto positivo na exploração de vozes está na quarta faixa da tracklist, ‘Brotou Na Minha Base’, com um ótimo refrão prolongando pequenos nuances de notas e um terceiro verso curto porém carismático para a saída. Apesar disso, a essa altura, o fundamento onde a rapper teria mais espaço de evolução continua no mesmo lugar que seu debut o deixou. A caneta da MC continua secundária sem grandes momentos, com exceções de boas metáforas aqui e ali, mas fica nisso, pouco explorando as temáticas que se propõe.

Temática que por sinal é um assunto mais forte em ‘Você Nunca Saberá’, em um instrumental mais obscuro, Sabino aborda a violência e solidão sofrida diariamente pelos seus. Indo além, aqui há o melhor refrão de todo o projeto: um flow de duas barras, uma mais curta outra prolongada e crescente, em um contraste bem manipulado. Já os versos mais rimadas são um tanto pausados e podem acabar travando a experiência da audição, apesar disso, quando se propõe a recuperar a estética do refrão, a música engrena novamente e poderia até durar mais, a track é a segunda mais curta do EP, passando a impressão de que terminou antes de pegar fogo de fato.

Se falta tempo de um lado, sobra de outro e ‘Loop de Dólar’ encerra o compilado não da melhor forma. A segunda maior faixa do EP, com participação de MC Laranjinha e MC Anjin, passa a ideia de que o projeto poderia ter acabado antes, antes dos dois convidados, de preferência. Os funkeiros demonstram-se extremamente perdidos na produção que mais se destoa da tracklist carregada pelos teclados, graves e flauta de SMU. O autotune é usado sem absolutamente nenhum critério na tentativa de dar qualquer relevância que fosse às participações dos MCs que falham copiosamente, de forma que nem a boa performance da anfitriã consegue salvar o final do seu trabalho que poderia, tranquilamente, ter se encerrado com mais alguns bons segundos e um novo verso na track anterior.

Preservando-se as diferentes entre um álbum e um EP, do ponto de vista técnico, Trono de Vidro não é uma continuação que avança pelo caminho iniciado por Glória. Os acertos aqui não possuem origem em uma progressão da rapper, mas sim do mesmo lugar onde Iza Sabino ficou no trabalho anterior, com suas ótimas melodias, modulação de vozes e representatividade fortíssima. No entanto e devido a isso, também preservou  suas debilidades com composições secundarizadas e uma caneta tímida. Obviamente o formato escolhido minimiza esses detalhes, mas, se a MC busca subir alguns níveis de prateleira aproveitando ainda sua ascensão do ano passado, é necessária mais ambição para evoluir o quanto antes.

Melhores faixas: Eu te Conto, Como 10 e 10 É 20 e Você Nunca Saberá