Review: Nas – King’s Disease II

É inegável que o fardo não é tão pesado agora

 

Para o bem e para o mal, as sequências de álbuns ocupam um considerável espaço na história do rap. Dependendo de como (e o quanto) são usadas, elas podem funcionar como um complemento dos conceitos e reflexões apresentados no trabalho original. Também podem servir como reafirmação de uma qualidade posta em dúvida após uma temporada ruim, e no caso de Nas, foi o icônico Stillmatic quem cumpriu esse papel. Sendo King’s Disease II a continuação do vencedor do Grammy de 2020, é inegável que o fardo não é tão pesado agora. 

Seguindo o maior acerto do último trabalho, temos Hit Boy comandando a produção e co-escrevendo todas as faixas, o que não apenas assegura coesão do projeto num misto de trap, jazz, soul e boombap, como também garante que os poucos links que o MC faz com o KD1 ganhem substância. O saudosismo ainda é bem forte, principalmente em sua primeira metade, mas há uma abertura razoavelmente maior para as possibilidades do presente, seja na entrega de flows mais espaçados ou na participação de nomes como Don Tolliver, Lil Baby e A Boogie wit da Hoodie. Nem todas as tentativas se mostram frutíferas do começo ao fim, mas há um avanço.

As primeiras faixas já apresentam tudo o que se espera de um disco do Nas: punchlines memoráveis, multissilábicas bem distribuídas em cada verso e um bom misto de reafirmações e reflexões. ‘The Pressure’ acerta em todos esses quesitos, mas o seu diferencial é a ótima virada no beat logo após o MC reafirmar a própria longevidade, mudando para um flow mais esticado no final de cada barra para que ele complemente a suavidade do instrumental. Tal versatilidade também pode ser sentida na previamente lançada ‘Rare’, onde ele alterna entre uma entrega comedida e uma dinâmica, conforme a percussão ganha protagonismo. Seu último verso deixa um pouco a desejar, mas o saldo se mantém positivo pelo bom uso de referências a Notorious B.I.G. em meio aos seus braggadocios.

Studyin’ Big, studyin’ Nietzsche

You gotta call in a chopper to reach me

Homie, I don’t need a jeweler to freeze me

Ice in my veins, I make it look easy

Mentally, I’m in Queens

More money more problems, you gotta be ready for all that it brings

Se há uma ideia frequentemente abordada no disco, é a mortalidade dos grandes nomes do Hip Hop, muito sentida nesses últimos anos. ‘Death Row East’ é o melhor exemplo disso, ao recontar com maestria a tensão existente entre a Costa Oeste e a Costa Leste, que resultou na morte de 2Pac, com quem teve um breve atrito. ‘EPMD 2’ não chega a ser tão focada no tema, mas as referências e os namedrops usados ainda trabalham a favor dessa temática. Além de contar com os próprios Erick Sermon e Parrish Smith, o remix também marca a primeira colaboração oficial entre Nas e Eminem, mas graças à competência de Hit Boy a sua produção não se torna tão cansativa quanto essa ideia já pareceu em tempos passados. A única ressalva a ser feita se refere ao final do verso do convidado, que mais uma vez acaba deixando os respiros de lado em prol de um caminhão de namedrops e monorrimas.

Ainda nos collabs que não resultaram em grandes tracks, é preciso citar ‘YKTV’. Apesar dela não ser a única com um beat de trap, ela é a que mais evidencia os limites do anfitrião em instrumentais que não pedem por esquemas de rima elaborados. Quem mais se destaca é A Boogie, que consegue usar bem as pausas entre as barras para valorizar seus trocadilhos (Been jackin’ Esco’ bars like he Pablo, huh), mas tanto o refrão como o verso de YG fazem com que o som volte a ser um arranhão no disco. Os demais convidados cumprem bem os seus papéis, seja num vocal adicional para encorpar o beat ou para cuspir um verso que realmente se conecte com a temática da obra.

Versos aconselhadores são outra constante em King’s Disease II. Nas faixas mais introspectivas, eles realmente conseguem evidenciar o quanto a experiência do rapper tem a oferecer, como ocorre em ‘40 Side’ e nas ótimas ‘Run Store’ e ‘Composure’. Mas quando aparecem de um modo mais conceitual, como em referência ao projeto anterior, eles acabam tendo um impacto não muito maior que o de uma boa linha. ‘Count Me In’ e ‘My Bible’ passam por esse problema, sobretudo essa última, que até chega a ser bem intencionada, mas acaba tendo uma visão de gênero desnecessariamente romantizada.

This chapter called “Women”, y’all been the rib since the beginnin’

A woman’s intuition, is what a man is missin’

To understand your wisdom is something I had to learn

Somehow you the most unprotected on planet Earth

Felizmente temos ‘Nobody’ na tracklist. A produção é de saltar aos olhos, com uma mescla de baixo, sax e canto tão simples, mas tão agradável que faz os quase 5 minutos da track passarem voando. O anfitrião também manda bons versos, usando uma lírica um tanto modesta para ser mais aberto sobre as dificuldades de aproveitar o próprio sucesso quando ele foge do controle. Mas o ponto alto é sem sombra de dúvidas o verso de Lauryn Hill. E nada de refrão e pós-refrão, como na também excelente ‘If I Ruled The World’; são 34 barras da convidada reafirmando todos os valores pessoais e artísticos que muitos de seus colegas e ouvintes parecem ter esquecido. Simplesmente incrível.

Now let me give it to you balanced and with clarity

I don’t need to turn myself into a parody

I don’t, I don’t do the shit you do for popularity

They clearly didn’t understand when I said “I Get Out” apparently

My awareness like Keanu in The Matrix

I’m savin’ souls and y’all complainin’ ’bout my lateness

A partir daí, temos um certo marasmo na performance de Nas. Os instrumentais continuam coesos, senão melhores nesse último terço, explorando elementos do R&B e do Jazz em boas progressões de piano e de violino durante os refrãos e saídas, mas a entrega do MC já não parece ter novas ideias a explorar.  Faixas como ‘‘Brunch On Sundays’ ou ‘Count Me In’ poderiam facilmente ser cortadas do álbum, se não fosse a competência do produtor em potencializar o lado mais “comemorativo” de seu parceiro. 

‘Composure’ é um som grandioso, apresentando um belo verso de Hit Boy e uma inspiradora fala de Shaka Senghor, muito mais digna de concluir o trabalho que a insípida ‘Nas is Good’. Não que uma das maiores lendas do Hip Hop não tenha mais o direito de se autoafirmar, mas é como se o final ideal estivesse logo antes, e não fosse utilizado. 

No fim das contas, a continuação King’s Disease II se beneficia do moral elevado do rapper. Muitas das boas ideias aqui presentes seriam secundarizadas ou até cortadas do disco se ele se preocupasse em ser “o melhor disco de Nas desde Stillmatic”, título que já foi tantas vezes levantado que a essa altura já perdeu qualquer impacto. Por outro lado, o projeto também se estende na sua reta final, e acaba tendo algumas arestas que o disco anterior não tinha, mesmo não dispondo de momentos tão inspirados. A grandiosidade de Nas continuará sendo inquestionável, mas seria bom se ele mostrasse mais o seu lado humano, pois é ele que tem feito seus melhores versos.

Melhores Faixas: The Pressure, Death Row East, Nobody e Composure.