Review: Don Cesão, Jamés Ventura, El Lif Beatz – Caça Níqueis

Falando em dinheiro, quanto mais ousada a aposta, maior é a chance de perder o investimento e Caça-níqueis é uma aposta segura para todos os envolvidos

Nem todo trabalho que fala sobre ambição precisa ser necessariamente ambicioso. Falando em dinheiro, quanto mais ousada a aposta, maior é a chance de perder o investimento e Caça-níqueis, projeto colaborativo entre artistas de dois dos maiores selos independentes do rap brasileiro, Pirâmide Perdida e Ceia Ent, é uma aposta segura para todos os envolvidos: um conjunto de beats de boombap pelas mãos de El Lif Beatz para Doncesão e Jamés Ventura rimarem em cima.

Também, pudera: DonCesão há muito praticamente deixou de ser rapper, exceto por alguns feats aqui e ali, para focar na vida de empresário depois de fundar a Ceia (seu último disco, Ego, foi lançado em 2020, depois de 10 anos sem um projeto autoral); James Ventura é, há mais de 10 anos, uma figura estabelecida no underground de São Paulo; El Lif Beatz é produtor da Pirâmide e tem no seu currículo beats pra nomes como BK e Sain. Era de se esperar que essa fosse a proposta do projeto.

Curto e direto ao ponto, o disco não perde tempo em apresentar o conceito que o batizou. Com um sample de uma máquina caça-níqueis, ‘Há uma cota’ traz uma melodia etérea sem baterias que lembra sons de Roc Marciano e Ka, abrindo espaço para uma demonstração competente de rimas sobre dinheiro, com destaque para as linhas de DonCesão:

Quero meu nome no pingente e não no Serasa

Será sorte ou será azar?

A alma boa voa, mas o urubu só vê carcaça

Reza, você vale o quanto pesa?

E não me interessa sua crença ou sua raça

Só pra minha mãe eu peço bença de cabeça baixa

E é o leque limitado de assuntos do projeto que deixa clara uma de suas fraquezas, que, surpreendentemente, não é ser completamente voltado a falar de grana. De estilos diferentes de rima, DonCesão com uma escrita focada em punchlines e wordplay e Jamés Ventura com sua caneta mais abstrata, os dois nem sempre parecem estar em sintonia. Pior para Jamés, que se mostra como o elo mais fraco do trio, não pela qualidade das rimas (o MC apresenta algumas boas linhas ao longo do álbum), mas por parecer não estar na mesma energia que os outros dois.

Isso fica mais claro em músicas como ‘Desafeto’, em que as rimas mais diretas e carismáticas do criador da Ceia chamam a atenção pela simplicidade e humor (“Saí pra dar um pião, comprar um presente pro meu filho / Menorzinho de 3 listras, polinho do crocodilo”), enquanto Jamés trabalha complexas rimas internas formadas por rimas fracas (como rimar “nasci”, “sofri”, “sorri” e “fi” ao longo de um verso). Até o verso de Pizzol, feat da música, parece casar mais com o projeto.

E, tratando-se dos feats, um deles aparece para roubar o show. Smile, cantor da Ceia Ent, usa seu bom alcance vocal para contrastar a sua voz suave com um refrão que fala de tráfico e cadeia em ‘Mármore’, apoiado por um instrumental swingado graças às linhas de baixo e à percussão. Na mesma música, Brill, da Pirâmidade Perdida, lança um clássico verso de Brill (divertido dentro do contexto da música, mas nada demais). É notório como a falta de DonCesão, que não tem verso nessa música, é sentida, visto que Jamés não consegue levar a track para o próximo nível.

Porém, há vezes que nem uma boa participação é capaz de corrigir os principais defeitos de uma música. ‘Aeroporto’, ainda no início do projeto, tem um beat impecável com sample de saxofone e baterias lentas e arrastadas, criando um ótimo palco para MCs que tenham algo a dizer. Com Sain como convidado, isso nos é prometido de cara, mas a música parece sofrer mais de um problema de construção musical do que falha na caneta dos artistas. Os versos extremamente curtos passam rápido demais e o refrão longo, mesmo com a boa referência a Racionais, é cantado em três momentos diferentes da música, deixando a faixa monótona e repetitiva. 

Músicas como essa deixam clara que a maior consistência do projeto vem, sem dúvida, da fantástica produção de El Lif. O trabalho com bateria mínima feita (como em ‘Há uma Cota’) transmite uma energia mais sombria, às vezes até melancólica quando unido a algum sample mais clássico (como os sopros dos metais de ‘Desafetos’). O beat de ‘Jogos de Azar’ usa sintetizadores com parcimônia para registrar a virada da bateria, que dessa vez é permitida ser mais participativa e presente. 

É justamente em ‘Jogos de Azar’ que ambos os MCs conseguem se encontrar em sintonia com seus flows e rimas. Talvez pelo beat mais caótico, com repentinos drum breaks ao longo do sample, mudando a contagem das rimas sobre a batida, Ventura consegue impor seu estilo lançando boas antíteses como punchlines (destaque para “Lavando dinheiro com o terno seco” ou “Confia em quem tá te roubando”) e o flow cantado de DonCesão dá um bom destaque às rimas internas do seu verso, além de saber usar bem o beat ao seu favor.

Indo à ‘Caça-Níqueis’, música que dá nome ao disco, o sample tenebroso de metais intercala com um piano sombrio no refrão, ambos acompanhados de um loop simples de bateria, mas que serve para dar espaço a bons versos, fazendo essa ser um dos destaques do disco. Por fim, o projeto se encerra com ‘Salve’, que não é bem uma música (apesar do bom instrumental). Nela, Tasha e Tracie aparecem para, juntos dos MCs responsáveis pelo projeto, mandarem um salve para as quebradas e favelas de São Paulo (e também algumas do Rio, para contemplar o produtor das faixas).

A liberdade que o conceito dá para DonCesão mandar seus braggadocios também fecha o cerco da escrita dispersa de Jamés, criando um projeto no qual um dos rappers se mostra mais confortável que o outro e que, no fim, El Lif Beatz se destaca mais que os dois mesmo sem se esforçar. Sem trazer nada de novo para nenhum dos três artistas envolvidos, Caça-níqueis não deixa de ser uma experiência agradável, apesar de não memorável.

Músicas favoritas: Há uma Cota, Caça-níqueis