Review: Azzy – Rímel [EP]

A falta de pontes e refrãos realmente marcantes acaba dando margem para que os convidados sempre se destaquem mais

Quer você goste ou não da Pineapple StormTV, é inegável que o canal abriu portas para muitos artistas do rap nacional. O que a princípio era uma vitrine para os novos talentos da cena rapidamente se tornou em uma das mais influentes e bem sucedidas plataformas do mainstream atual, fazendo números que frequentemente furam a bolha do meio e garantem turnês por todo o país. Entre suas várias iniciativas de sucesso, a de maior destaque é a “Poesia Acústica”; e entre os artistas que mais se destacaram nela, temos a carioca Azzy.

Suas habilidades no canto já são conhecidas, suas inúmeras colaborações com os principais nomes do trap e do rap acústico dão uma boa noção de como ela consegue dialogar com vozes melódicas e ríspidas e ainda manter o som acessível para qualquer ouvinte. Em Rímel – seu novo EP – essa característica se mantém, mas a falta de pontes e refrãos realmente marcantes acaba dando margem para que os convidados sempre se destaquem mais.

Quando sozinha, a rapper consegue bons desempenhos e ‘São Gonçalo’ é o melhor exemplo disso com um refrão bem cadenciado e bem escrito, uma boa mescla de introspecção e confiança durante o verso e até algumas rimas internas durante as primeiras barras. O instrumental não faz um uso muito ambicioso dos seus sintetizadores, mas se sustenta pela boa dinâmica com a voz suave da anfitriã (o que também pode ser dito sobre as demais faixas do EP, também produzidas por Boca dos Beats). No geral, é a faixa que melhor comprova a sua evolução na escrita desde ‘Não Toca Na Lace’.

Filhas, perdoem meus erros, mas o que eu faço é pra sua melhoria

Com elas aprendo, não posso ter medo, tenho que ser exemplo pras minhas crias

Não guarde segredo, em mim confia, segundo dinheiro, primeiro a família

Isso não tem preço, minha correria, mais uma Silva, minha estrela brilha

O problema é que a partir daí a maioria dos versos são entregues de bandeja aos convidados. Isso não seria exatamente um problema se os refrãos e as pontes, conduzidos por Azzy, fossem poéticos ou grudentos o bastante para serem repetidos até a chegada do feat, mas eles não são. Não chegam a ser mal escritos, e com certeza são bem performados, mas linhas como “Tô pilotando rápido demais” ou “nadei raso demais” não ganham substância quando pronunciadas uma segunda ou uma terceira vez.

Quanto aos versos, há alguns destaques. Major RD dá um bom contraste ao projeto com sua entrega rasgada em ‘Espero Que Sinta’, usando inicialmente um flow acelerado para transmitir a urgência e a efemeridade daquela relação, mas também fazendo pequenas pausas para dar alguma abertura emocional. Já em ‘Borboleta Azul’, Chris MC usa sua habilidade no R&B para construir um verso que potencialize seu alcance vocal e minimize a sua superficialidade na rima, obtendo um moderado sucesso graças ao seu flow mais espaçado; ideal para esticar as sílabas tônicas.

‘Luzes de Neon’ também apresenta uma boa dinâmica entre as vozes que a compõem, mas é de longe a faixa onde Azzy mais soa como uma coadjuvante do próprio disco, e não só pela presença mais comedida (e mais interessante) de Cynthia Luz, como também pela curta duração da faixa. Mesmo que nenhuma das pontes até então apresentadas fossem particularmente bem escritas, a sua ausência aqui acaba dando um peso maior para o refrão que, novamente, é bem cantado e faz um bom uso da atmosfera anestésica do beat, mas não sustenta a track. 

Surpreendentemente, o EP decide encerrar num trap com graves fortes num loop de flauta, o que com certeza se destaca das outras batidas, além de apresentar a anfitriã mostrando mais uma vez o que ela consegue sozinha. O resultado, no entanto, é bem menos interessante que ‘São Gonçalo’, pois tanto a entrega sussurrada como os versos e o refrão são extremamente genéricos. E por ela ser ainda menor que a faixa anterior e apresentar um instrumental e uma performance muito destoantes da vibe que o projeto aparentava propor, a faixa acaba soando ainda mais dispensável. 

Ao fim da audição, pouca coisa parece ter sido devidamente desenvolvida. É até difícil concluir se é o apelo comercial da MC que a está limitando ou se ela simplesmente está satisfeita com a zona de conforto alcançada com os hits que participou. Mas, se tem uma coisa que pode ser dita sobre Rímel, é que o trabalho mostra muito pouco do que ela tem a oferecer e já ofereceu em singles no passado. Enquanto Azzy deixar o conceito das faixas colaborativas nas mãos de seus convidados, esse potencial continuará adormecido.

Melhores Faixas: São Gonçalo

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