Review: Cristal – Quartzo

No EP, Cristal mostra o que a diferencia da maioria dos MCs que surgem na cena: uma consistência altíssima, onde o seu piso performático está acima do ápice de muitos.

O surgimento de Cristal pro rap foi relâmpago. A artista lançou seu primeiro single em junho de 2019, fez sucesso com sua faixa seguinte, ‘Ashley Banks’, e em março do ano seguinte já estava gravando com o maior artista da cena. No final de seu segundo ano, só 18 meses após sua estreia, estava sendo premiada como revelação do ano, batendo inclusive artistas que já faziam números muito mais altos. E o mais interessante: isso tudo de forma orgânica, sem selos grandes por trás e num Rio Grande do Sul que raramente atrai holofotes nacionais no hip-hop. Era difícil negar que essa ascensão vinha nas costas de muito mérito, e a expectativa para seu primeiro EP era grande. Em Quartzo, a artista mostra que nada disso veio por acaso.

São raríssimos os artista que podem ter, como primeira linha de fato de seu primeiro trabalho “eu já tenho a atenção que eu sonhava em ter“. Ao dizer isso, a rapper mostra que o foco de seu trabalho está em abrir seu diário, falar o que está em seu peito e não em caçar um grande hit, trocando a amostra de diferentes talentos e de viabilidade comercial que frequentemente se vê em estreias por uma – mesmo que inconsciente – coesão narrativa e sonora, o que, embora as vezes cause dano, é um grande mérito do trabalho. A MC dá seguimento ao trabalho que a trouxe até aqui, apostando em seus pontos fortes: os beats de trap mais atmosféricos de MDN Beatz, as mudanças de cadência constantes entre o rimado, o cantado e principalmente o meio do caminho, com temáticas que vão de dentro pra fora.

‘Ametista’, a primeira canção de fato do projeto, mostra mais do que cativou a cena nos últimos dois anos. MDN entrega um beat de trap com baterias contidas, que vem e vão, e o violino é o instrumento da vez para dar um ambiente mais contido. O espaço dado pelo beat é usado pela rapper para variar seus flows a todo instante, com seus sentimentos sendo expostos por meio de um delivery mais potente. A primeira metade do disco mostra uma Cristal desconfortável com seus entornos, e nesta track ela põe para fora tudo o que vem à sua mente, usando muito bem as trocas de flow ou de entrega para demarcar as mudanças de raciocínio, tendo como ponto fraco o fim precipitado da track . Embora esta toque brevemente na posição da MC na cena, essa ideia é mais desenvolvida a seguir em ‘Start’, um dos destaques do projeto. Aqui ela mostra como se vê após sua ascensão, com dificuldade para separar o que é real e quem realmente está ao seu lado. A faixa dessa vez tem um piano singelo e entradas de violão para dar o ambiente mais suave, graves bem espaçados e a MC, mais uma vez, abusando de mudanças de flows. A faixa encontra um ápice no refrão, onde Cravo & Rosa chegam no feat para dar uma bela profundidade com seus vocais e a anfitriã começa a entender que tem que jogar. O segundo verso é um dos melhores do trabalho, onde ela aponta os dedos sem medo e toma maior consciência das afecções que a transição de anônima para revelação teve em si mesma, entregando bons flows e one liners.

Só quero um beat calmo pra aliviar o stress
Queria me despir de todo rolê de rap
Pra ver como olhariam sem saber das minhas track
Sem saber de trap, bitch, bag,lean, e backstages tão podres quanto a boca do presidente
Cara, tu me escuta mas tu não me entende?
Frases falsas e interesses

Na sequência, ‘Enemies’ encontra a MC num ponto de fricção, onde o levante iniciado na faixa anterior evolui para uma postura totalmente combativa. Os beats contidos dão lugar a um trap mais potente produzido por Vennessy, que eleva o BPM e traz um sintetizador soturno. A track tem seu potencial um pouco cortado pela estagnação do beat e a repetição excessiva de versos em inglês, que aqui soa forçada; no meio do caminho entre Black Alien e trappers padrão (felizmente, mais perto do primeiro). O EP continua a ter problemas em ‘Lá Em Casa’. Como dito, existe uma coesão sonora no disco e ela é atirada pela janela nessa faixa, onde o trap que domina o disco dá lugar a um cavaco que leva a faixa do começo ao fim. E isso não significa que ela seja ruim – Cristal explora mais seu vocal e as participações infantis são muito boas, não só o refrão, mas as falas na intro e outro são incrivelmente adoráveis – mas é incrivelmente destoante do resto. Ao menos a narrativa não é quebrada aqui, e a faixa marca uma virada no disco: Cristal troca o foco nos problemas que encontra fora e busca o amor e a inspiração que tem em casa.

A busca pelo amor vai também para o romântico, no ponto mais alto do disco. ‘Alvo na Rua’ é a típica faixa que teria tudo pra ser um hit se tivesse um maior alcance com um refrão extremamente cativante, dividido em duas seções autossuficientes e muito bem escritas. A faixa é uma ode ao amor preto, onde a MC mistura as referências pessoais e externas para criar uma história muito cativante. Aqui Cristal também traz a atenção para seu passado, onde ela atuava como poeta de slam, abrindo o conceito no refrão (Quem mandou tu gostar de poeta?) e prolonga ele no segundo verso, todo declamado e extremamente bem escrito; destaque maior ainda para o primeiro, onde toda a habilidade técnica é colocada a prova.

‘Nefertiti’ é outra faixa que difere um pouco do restante, mas não tanto a ponto de soar fora do lugar, funcionando muito bem como uma última track. Esta é uma carta que parecia fora do baralho de Cristal e MDN: o beat é extremamente cativante, sendo uma mistura do trap habitual com um pop e baterias que lembram um afrobeat, onde o produtor usa um belo sample vocal como instrumento. A rapper se coloca fora de sua zona de conforto, trabalhando com mais modulação vocal, incorporando uma persona diferente da antes vista, focada na ostentação e no braggadocio (Nefertiti significa ‘a mais bela que chegou’). Se antes Cristal buscava forças para jogar o jogo, a volta para as pessoas que a amam de verdade deu a motivação que precisava.

No EP, Cristal mostra o que a diferencia da maioria dos MCs que surgem na cena: uma consistência altíssima, onde o seu piso performático está acima do ápice de muitos. Embora seu teto (que até o momento está posto em ‘Ambição’, uma das melhores faixas lançadas em todo o rap nacional nos últimos dois anos) não seja atingido, com pontos altos não tão altos, o EP é sólido do começo ao fim. Mas, como de costume, alguns vícios estão claros, como a recorrência frequente a palavras em inglês, algumas mudanças de flow ansiosas e finalizações de track por vezes abruptas.

Mas estes são fatores que não chegam perto do brilho e do potencial exposto durante os 20 minutos de Quartzo. Este EP deve ser admirado: não tem faixa ruim, e faz bonito logo no primeiro trabalho de uma artista que tem o mundo a sua frente. A parceria da MC e seu produtor, em plena sintonia, tem tudo para render diversos frutos, e isso já começou neste trabalho. Se, como dito na intro, “cristais são pedras únicas”, no rap Cristal também é. E pode anotar: mesmo que tu não queira, ainda vai ouvir falar dela.

 

Melhores faixas: Start, Alvo na Rua, Nefertiti