Review: Felp 22 – Melhor Momento

Quando a introspecção acaba, o que sobra é um grande acúmulo de referências e autoafirmações genéricas, seja no campo da música, do crime ou do amor

 

Conteúdo Explícito foi um marco para a carreira do Cacife Clandestino. Se, até seu lançamento, a dicotomia entre a vida e o crime ainda era uma das temáticas centrais que Felp 22 abordava, seu imediato sucesso comercial lhe deu a confirmação de que também poderia voar. Mas ‘Sulicídio’ aconteceu. E mesmo que o principal nome da Medelin Records tenha evitado se envolver diretamente na controvérsia da época, a simples menção a seu nome já foi mais que o suficiente para que o seu prestígio fosse questionado. 

Os anos se passaram e o grupo continuou produtivo, mas a cena foi mudando. Cyphers, remixes, álbuns conceituais; muitos dos principais nomes atuais despontaram a partir daí. Quanto aos principais nomes de outrora, quem não conseguiu se atualizar teve que se contentar com o público já cativo, e foi isso que Felp fez desde então. Seus números ainda são expressivos, mas as expectativas e a repercussão de qualquer um de seus últimos trabalhos (seja no grupo ou individualmente) para fora de sua bolha tornaram-se praticamente nulas.

Para rebater essa situação, o MC carioca lança Melhor Momento, seu terceiro disco solo, apostando no bom e velho boombap para celebrar suas conquistas pessoais e profissionais, enquanto revisita seu passado, rebate críticas e aborda relacionamentos. Quando comparado a seus projetos anteriores, Jogador Caro e Gelato, é possível notar um certo comprometimento em abordar temas que seu apelo comercial limitava. No entanto, infelizmente, a maioria de seus vícios em temática e performance continuam nesse disco, e vão se tornando cada vez mais incômodos conforme as faixas perdem seu foco.

O projeto até começa interessante com um Felp nostálgico, mas seguro de suas escolhas em ‘Tempo Bom’. Em termos de lírica, ele nunca entregou versos de saltar os olhos, e aqui não é diferente, apesar disso, o teor autobiográfico do som é o que mantém o ouvinte atento. ‘Fênix’ já é uma das que seguem numa abordagem mais motivacional, evitando linhas cruas para que a mensagem abranja um público maior, mas ela ainda consegue ser marcante pela suave linha de guitarra que dá as caras durante o refrão. O problema é que, quando a introspecção acaba, o que sobra é um grande acúmulo de referências e autoafirmações genéricas, seja no campo da música, do crime ou do amor. 

Existem algumas exceções, como ‘Não Amo Ninguém’, que arrisca no storytelling; ou ‘Tropa da NBA’, cujas linhas e até a entrega são próximas do funk proibidão dos anos 2000, mas até nelas há um gritante desperdício de barras, ao ponto de fazer o ouvinte questionar o porquê delas pertencerem ao disco. E o fato da maioria delas serem longas e quase nunca apresentarem rimas internas ou variações de flow só aumenta o desapontamento quando suas finalizações são previsíveis. Isso é ainda pior nas faixas que deveriam transmitir a sua autoconfiança, como ‘Acredite em Você’, ‘M.V.P.’ ou a própria ‘Melhor Momento’, que apresenta o instrumental mais enérgico do disco, com linhas de guitarra praticamente retiradas de uma banda de hard rock igualmente mal aproveitadas pelas punchlines preguiçosas.

Meu coração frio como inverno

E a mente quente sempre como inferno

Válvula de escape, a caneta e o caderno

Não trabalho pra patrão, nem magnata de terno

Os refrãos também são muito inconsistentes. Se alguns demonstram toda a experiência que Felp adquiriu desde sua ascensão ao mainstream, outros são construídos de uma forma que beira o amadorismo. ‘Conexão Jamaica’, por exemplo, apresenta uma típica queixa aos gangstas de estúdio que romantizam a criminalidade. Considerando a quantidade de raps abordando esse assunto, não deveria ser difícil elaborar um refrão ou uma ponte que sintetizasse o conceito do som, mas o rapper preferiu empilhar uma porção de referências sem nenhum propósito além de repetir o que já havia sido dito nos versos. Como resultado, temos um dos piores refrãos do ano.

Não é Street Fight, não tem hadouken

A cobrança é no silêncio, estilo Many Men

Da onde ‘cê vem? ‘Cê conhece quem?

Nunca se envolveu, fala que é o Gucci Mane

Cinto Louis Vuitton, óculos da Fendi

Se bater de frente, levo suas corrente’

Sustagem e Neston, revoltou com os parente’

Vende umas grama’, diz que é o 50 Cent.

Quanto às lovesongs, há uma competência razoavelmente maior, principalmente nos flows, que são bem mais versáteis do que no restante do projeto, provavelmente pelos últimos discos dele terem tido uma boa porcentagem de faixas assim. As batidas também seguem o mesmo esquema de mesclar os sintetizadores com instrumentos de cordas, o que impede que tracks como ‘Setor’ ou ‘Química’ soem completamente deslocadas, mas, novamente, o problema se encontra nas composições. Se elas ao menos apresentassem nuances, ou fossem pegajosas como um hit precisa ser, o saldo ainda seria positivo, mas o que temos na maioria das vezes é uma série de insípidas descrições de relacionamentos que o próprio MC diz não se importar. E o fato das mulheres quase sempre serem retratadas como figuras indignas de afeto e confiança torna os versos românticos ainda mais insinceros.

Chegando na reta final, temos a mais extrema variação de qualidade de todo o álbum, representada pelas faixas ‘Velho Amigo’ e ‘Obrigado Mundo’. Na primeira, Felp narra com surpreendente primor uma traição que resultou na morte de um companheiro de crime, num instrumental, agora, acompanhado por um soturno saxofone, mas também recheado de elementos como tiros e sirenes para tornar a história mais imersiva. É facilmente a melhor track do disco; possivelmente a melhor de todos os seus discos solo, e méritos devem ser dados a ele e a WC no Beat, que produziu a batida.

‘Obrigado Mundo’, por outro lado, caminha para o exato extremo oposto: deixa de olhar o micro para refletir sobre o macro, ou para as injustiças do mundo, para ser mais preciso. O conceito é semelhante ao da faixa ‘Pirata das Estrelas’, que finaliza o álbum Marginal, do Cacife e, assim como ela, os versos vão para vários lugares e ao mesmo tempo para lugar nenhum. Mesmo que a intenção de comentar sobre a fome, a guerra e a desigualdade social seja uma ideia bem-vinda, a sua execução consegue ser tão piegas e superficial que a track chega a ser um desserviço à própria mensagem (o que diabos significa Lugar de fé que virou militância”?). Dessa forma, Felp desperdiça o que poderia ser uma excelente conclusão para Melhor Momento. Uma pena.

Diante do que foi apresentado, as expectativas para os próximos passos do MC continuam baixas. Para um trabalho que supostamente o faria “voltar às suas origens”, o projeto ainda soa demasiadamente comercial, a ponto de diluir ou até mesmo destruir alguns dos poucos momentos em que o artista sai da casca que ele mesmo ostenta. É triste ver um rapper experiente preso aos próprios excessos, ainda mais quando ele parece tentar voltar aos trilhos. Que essa não seja sua única tentativa.

Melhores Faixas: Tempo Bom, Fênix e Velho Amigo

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