Review: Tyler, The Creator – Call Me If You Get Lost

Unindo tudo o que aprendeu na carreira à maturidade pessoal e artística adquirida, Tyler está no auge de seus poderes.

Desde 2019, Tyler, The Creator tem estado no topo do mundo. Após um conturbadíssimo início de carreira, o artista teve uma evolução pessoal tamanha que o fez passar de alguém proibido de entrar em países e eterno cancelado a um dos artistas mais amados de todo o hip-hop, enquanto derrubava as paredes entre os gêneros musicais.  Ficava então, uma grande dúvida: após toda essa evolução, qual seria o próximo passo para o artista? Após anos escalando uma montanha, o que se faz quando chega ao topo? Para Tyler, a resposta é: observar todo o caminho.

Os três álbuns anteriores de Tyler eram álbuns experimentais. O artista saiu do rap mais pesado que caracterizou seu início de carreira para explorar novas influências, colaboradores e por vezes outros gêneros; já seu novo disco, Call Me If You Get Lost, não pode ser chamado assim. Ele já passou da fase de experimentações, e agora, é hora de colher os frutos de seus testes, experiências e aprendizados e colocá-las em jogo, ao mesmo tempo que retoma o talento na rima e a energia que o deram notoriedade num primeiro momento. Unindo tudo o que aprendeu na carreira à maturidade pessoal e artística adquirida, Tyler está no auge de seus poderes, intocável e capaz de fazer sua obra mais completa até agora.

Como é de praxe para o artista, mais uma vez T assume uma persona diferente, que aqui atende pelo nome de Tyler Baudelaire, um viajante de espírito livre. Esse espírito livre se mostra na narrativa, com o eu lírico se colocando como alguém que viaja pelo mundo  e busca experiências, e também na construção sonora do disco, com Tyler passeando entre beats que raramente são semelhantes entre si, indo do boombap ao reggae, mas sempre unidos por um maximalismo e a presença de múltiplas camadas e seções nas tracks, raramente havendo um loop se repetindo por longos períodos. ‘Sir Baudelaire’ é uma introdução perfeita para o disco, explorando a persona livre, rica e confiante que o rapper assumirá.

A intro também apresenta uma peça central do disco inteiro: DJ Drama. O lendário DJ aparece o tempo todo com gritos e falas que dão um importante apoio à história, sendo uma bela adição ao trabalho. Ele também liga Tyler a um rap mais “raiz”, e essa ligação também é vista em boa parte das tracks, sobretudo na primeira metade. ‘Corso’ começa já trazendo um beat dinâmico e potente, com uma mix suja, gritos de batalha ao fundo e sintetizadores aparecendo; acima de tudo isso, Tyler vem numa excelente performance, com flows enfáticos que mudam o tempo todo, num raro braggadocio na carreira do MC. ‘Lemonhead’ segue nessa linha, com cornetas fortes e um baixo poderoso dando peso ao beat sobre o qual ele rima com muita confiança. 42 Dugg dá uma boa cara à segunda metade track, com um flow que se encaixa com perfeição ao instrumental. Em ‘Lumberjack’ o MC entrega um boombap pesado, com um refrão com potencial pra hino de festa e diversos one-liners de destaque.

Embora a lista de feats seja menos empolgante que a dos últimos discos de Tyler, aqui em diversos momentos eles são postos para brilhar, mais uma vez mostrando a enorme habilidade do artista como aglutinador. Provavelmente a grande surpresa vem em ‘Wusyaname‘, faixa que tem um beat com baixo suave e samples vocais angelicais. Embora a performance do anfitrião seja boa e Ty Dolla $ign adicione lindas harmonias à track, é o geralmente medíocre NBA Youngboy quem rouba a cena, entregando flows e inflexões vocais extremamente cativantes, sendo o melhor feat do álbum. Em ‘RISE!’ temos uma das melhores faixas, com Tyler falando o tempo todo sobre sua ascensão e motivando o ouvinte, além de um beat muito bonito e um destaque ainda maior para Daisy World, com uma performance vocal extremamente cativante. Um destaque positivo vai também para Lil Wayne, que já não empolga há tempos, surpreendendo a todos na excelente Hot Wind Blows, onde temos piano de jazz e flauta criando uma atmosfera de riqueza para que no final dela o convidado quebre tudo. Weezy traz mudanças de cadência, entrega carismática, breves speedflows, acerta ótimas punchlines… o pacote completo.

I fuck ’round and slow the beat down and take the drums out
The speed of my plum so great, I’ma eat my own flow
And I’m in need of a flaw, may eat me a rapper, I might as well eat me a ho (Oh)
I’m hot as hell when the weather is freezin’ the cold, as the devil and demon and ghost
I’ma get even and even, get even some more, it’s too late to even get low, baow

Embora tenhamos cada vez mais tracks calmas e cantadas ao passo que o disco progride, Tyler sempre volta para um rap mais sujo, usando a liberdade que permeia o trabalho para passear entre estéticas, usando de beat switches, intros e outros para não deixar que o álbum perca a coesão. ‘Manifesto’ é uma faixa de muito peso, onde o MC traz seu antigo parceiro de Odd Future, Domo Genesis, para mandar diversas porradas  para a geração de militantes de internet, falando das cobranças indevidas e sobre como pessoas acham que fazem muito pelo twitter, por exemplo. Tudo isso com mais um ótimo beat, que muda ainda no primeiro minuto de um boombap para algo mais dinâmico, onde o artista tira uma página do livro de Kanye para usar um sample vocal como se fosse um sintetizador, adicionando à natureza dramática da faixa. Perto do fim ‘Juggernaut’ é simplesmente um banger de muito peso, com o dono do disco, Pharrell Williams e sobretudo Lil Uzi Vert entregando excelentes versos em cima de um baixo potente, baterias dinâmicas e sintetizadores que formam um instrumental “de balançar a cabeça fazendo careta”.

Tyler passa o disco inteiro se colocando como alguém intocável, e o interlúdio ‘Blessed’ mostra ele falando sobre seus enormes sucessos, como ele é grato e não subestima tudo de bom que tem acontecido em sua vida. Apesar disso, ao longo do disco Tyler mostra uma única área em que tem problemas (além do cabelo que não cresce, que ele admite na faixa citada): o amor. Na narrativa do disco, o personagem sempre baixa a guarda quando fala de relacionamentos, mostrando que falta uma companhia em suas viagens, e essa companhia não está lá porque ela escolheu outra pessoa ao invés dele.

‘Wusyaname’ mostra ele se apaixonando por alguém que recém-conhecera, e na tradicional faixa dupla do álbum de Tyler (em todos os discos a 10ª track tem essa estrutura), ‘Sweet / I Thought You Wanted To Dance’, Tyler desenvolve mais esse sentimento, se tornando cada vez mais apaixonado pela pessoa até acabar em decepção por não ser o escolhido. A primeira parte é essencialmente uma faixa de IGOR, com sintetizadores proeminentes e uma vibe oitentista, modulação forte na voz do MC e performance cantada quase que durante todo o tempo, incluindo uma linda participação do cantor Brent Faiyaz. A faixa, então transiciona para um inesperado reggae, onde Tyler e Fana Huez cantam numa vibe ao mesmo tempo romântica e tropical. A participação da cantora é incrível, atingindo todas as notas que se propõe com uma melodia cativante. A faixa se destaca sem cansar, com quotables do início ao fim.

A riqueza de detalhes impressiona e mostra quanto trabalho Tyler colocou aqui, seja por instrumentos que aparecem apenas em um breve momento, vocais colocados no fundo ou outras ferramentas que numa décima audição pegarão ouvintes de surpresa. Justamente por isso é estranho ver o único ponto realmente baixo do álbum, ‘Wilshire’. A track é um storytelling de 8 minutos, onde o rapper conta toda a relação com essa pessoa que já tinha um namorado. O problema é que a track é a única a ter um (agradável) loop repetido do início ao fim, onde Tyler rima tudo em take único, segundo ele, com um microfone de merda, e embora a história seja bem contada, o exagero no detalhamento da relação eventualmente cansa. A mixagem também é muito mal feita, com ruídos do lado direito que fazem as pessoas se questionarem se o fone está com defeito.

Isso não é pra dizer que não existem outros defeitos no disco. 42 Dugg perde o momentum em algumas pausas de flow, Pharrell alonga demais seu verso e o beat de ‘Run It Up’ não causa grandes impressões, mas eles são como achar agulha num palheiro, e são de muito, muito longe ultrapassados pelos pontos positivos, inclusive nas próprias tracks. Esse álbum é simplesmente incrível.

Nem todo mundo pode ser Kanye ou Nas, que já estrearam com um clássico. Há, também, muita beleza em ver um artista surgir com talento cru e lapidá-lo pouco a pouco, progredindo artisticamente conforme o tempo passa. T fez este caminho, e cada vez mais completo como artista, fica difícil dizer qual é o limite para ele. Após escalar uma montanha, ele pode tanto aproveitar sua estadia por lá quanto viajar para outro lugar, mas seja lá qual for, sabemos que ele entregará arte de qualidade. Há na internet um intenso debate, sem resposta clara, entre IGOR e Flower Boy para saber qual o melhor álbum de Tyler, The Creator. Bom, certamente temos um novo competidor, e um que já chega como favorito.

 

Melhores faixas: Wusyaname, Manifesto, Juggernaut, Rise!