Review: Indy Naíse – Esse É Sobre Você

O EP consolida a cantora no R&B e mostra uma maior maturidade artística.

Com produção de Rincon Sapiência, conhecido como “Manicongo”, Indy Naíse, baiana radicada em São Paulo, lança seu mais novo EP. Considerada uma das promessas da nova MPB em seu início,  ganhou em primeiro lugar como melhor cantora em todas as categorias do Festival de Música Ala Guarujá já em 2014. A cantora já tem alguns trampos na pista: seu primeiro álbum, É Questão De Cor, lançado em 2018, fala sobre negritude, feminilidade, ancestralidade e tem sons mais orgânicos e percussivos unidos ao som da guitarra e outras cordas.

Desde então, Indy vem produzindo singles avulsos, como o excelente ‘Fogo no Baile’ com o rapper D’Ogum, e tem feito a transição para o R&B, apostando em instrumentais mais digitais, culminando em Esse É Sobre Você, numa produção de peso e audiovisual muito bem trabalhado, com cinco faixas inéditas. Com título sugestivo, o EP tem uma pegada bem lovesong, mas não se concentra apenas nas boas fases de um relacionamento, as letras trazem também questões como a importância do amor próprio ao passo que se entrega ao afeto.

Começando com ‘Só Você Sabe’, Indy conta o retrato da boa fase, em que a pessoa encontra-se perdidamente apaixonada e só tem olhos para a pessoa a qual a canção é dedicada. A música tem um beat de R&B que parece pouco inventivo, com organ e pianos marcados nos versos, até virar repentinamente em um funk com baixo bpm, quebrando a expectativa deixada pelo início. Os elementos são bem dispostos, desde as viradas que abrilhantam o beat até a voz que surfa muito bem no instrumental. Indy sabe bem os momentos de multiplicar as vozes, brincando com elas principalmente no refrão, enquanto a voz de Rincon aparece cantando “a noite é nossa” num chopped & screwed, sendo esses pequenos detalhes que dão outra cara para o som. 

Já na música que segue, ‘Lírios’, introduz com um agogô junto ao organ, dando o compasso em toda a música mesmo que desapareça em momentos para se destacar mais em outros, como no pré-refrão. Essas variações dão suporte para uma sonoridade mais próxima à dos antigos singles da cantora, falando de amor e de espiritualidade na mesma track, olhando os laços como bênçãos dos orixás. É como se o relacionamento estivesse na fase em que o casal está em sintonia. Os sintetizadores na música dão um diferencial nessa atmosfera entre o velho e o novo, e destaque ainda maior  se dá no refrão, em que entra uma guitarra elétrica e tem seu ápice lírico. Novamente a produção merece elogios, num beat que dança junto com a voz da cantora, e essa fórmula de trazer alguns elementos dos sons antigos da cantora para a música poderia também ser trazida para outras músicas para ampliar o repertório. Uma entrada de Rincon como rapper também foi uma expectativa não suprida no EP.

Pedi uma bênção aos orixás

Pra nos proteger

Ao som do ijexá

Nem sempre é fácil de segurar

Mas nóis tem dendê

Somos feitos de guerra

Prontos pra vencer

A faixa-título, central no projeto, não está no mesmo nível das anteriores. O beat é ordinário aos demais, que se concentram em arranjos mais complexos dentro da proposta de R&B. O instrumental é mais constante sem nada de destaque, mesmo que bem colocado e mixado. A temática também se aproxima muito com ‘Só Você Sabe’, mas puxa pra uma atmosfera mais casual, ao falar frases como “talvez nosso lance não seja pra ser” (mas sem perder a esperança né? rs). D’Ogum é o convidado e traz um verso curto que beneficiaria a track se fosse um pouco maior, até por ele apresenta dois flows com boa alteração, inclusive no primeiro o autotune é usado e no segundo não. Apesar do feat falta um diferencial na track, como um instrumento de metal que aqui se encaixaria bem aos vocais.

Já em ‘A”Mar” É’, com uma construção lírica muito mais curta que brinca com a palavra mar e amar nas suas variações, a música é muito bem construída, trabalha a multiplicação da voz como se fosse um mantra e, apesar do beat simples, as vozes agem como complemento instrumental. O artifício do coral ajudou a dar um tom especial à track, de modo que as vozes múltiplas preenchessem os vazios. É a segunda melhor música. O metal que não estava presente em nenhuma faixa aparece nessa e dá uma vida nova ao arranjo. Aqui, é como se o relacionamento tivesse acabado e a interlocutora encontra amor em si mesma.

Não vou implorar

Pra você ficar

Amor é via de mão dupla

E na contramão

Eu fui arriscar

Ferida e tomada de culpa

A disposição das músicas foi bem pensada e essa na reta final deu o tom de fechamento de ciclo, a história do relacionamento. ‘Cicatriz Lunar’ é um reencontro com si, da busca por cuidar do “eu” que antes era nós. Indy explora mais a mudança de tom na voz e Drik Barbosa, que tem um timbre parecido, lança três flows distintos oscilando entre melody e no melody, se destacando e destacando a faixa. Quando cantam juntas no fim a união dos vocais é muito interessante, expondo a semelhança nos timbres. Num geral, aqui músicas não são extraordinárias nas construções de suas letras mas as palavras são bem colocadas e os bons arranjos destacam essas simplicidades, e na faixa que encerra o EP fica muito perceptível como a letra conversa com o beat. Sem dúvidas a melhor música do projeto. 

Esse É Sobre Você supera expectativas, com sua autora se consolidando na cena do R&B. O EP é uma evolução em relação ao primeiro álbum de Indy Naíse, sobretudo no lado da produção, demonstrando maturidade artística ganha com o tempo. A mixagem e os instrumentais são os principais pontos, cortesia de Rincon Sapiência, que vem sendo mais ativo nas produções e assina o EP inteiro. Fica uma curiosidade para ver a cantora fazendo no melody também e aperfeiçoando suas rimas, explorando mais esse ritmo e se consolidando na cena. Fica a expectativa que a artista, prosseguindo na promissora carreira, busque trazer mais de suas particularidade e originalidade ao ritmo, como de sua obra anterior, ponto que não foi tão trabalhado como poderia neste projeto. Dito isso, como um todo, o EP é muito agradável e o saldo é bem positivo.

Melhores faixas: A”mar” É, Cicatriz Lunar