Descobrindo #05

Trazemos cinco nomes que despontam logo no início de suas caminhadas com belas amostra de talento.

Depois de um tempo parada, a série favorita dos buscadores de talentos está de volta para sua quinta edição. Aqui, trazemos cinco nomes que despontam logo no início de suas caminhadas (ou um pouco a frente do início) com belas amostra de talento, mesmo sem (ainda) terem os holofotes. Se liga:

Trevo Ribeiro – A Mata Cobra (EP)

Trevo Ribeiro é poesia ritualística antes de mais nada. De origem acreana, o compositor, músico, poeta e agora MC traz a força e a representatividade nortista em cada elemento de seu trabalho. Ancorado a toda sua bagagem de formação antropóloga, trabalhos em ONG com povos indígenas e influências da poesia de rua de Rio Branco, o artista parte para este novo desafio ao lançar o seu primeiro EP intitulado A Mata Cobra. Todo esse teor de reinvindicação, que com certeza encontra respaldo em seus engajamentos de mobilização artística, é a força motriz desta nova faceta da arte de Trevo.

O trabalho apresenta uma sonoridade pouco usual ao rap que nos costumamos a consumir aqui embaixo, e que bom. A musicalidade da mata, impulsionada pelos batuques afroindígenas que se acrescentam a linhas de guitarras e baixo, se encontra ao rap quase spokenword do MC. Digo quase porque é como se Trevo Ribeiro ressignificasse, com suas raízes, conceitos que já passaram de ser bem estabelecidos e chegam a ser cansativos na boca de boa parte do cenário, eu explico. Por exempolo, as wordplays, recurso comum e muito empregado por tantos, aqui, ganham nuances de trava-língua em uma corporalidade ritualística muito particular e presente somente naqueles que respiram sua cultura popular, como claramente é visto na poderosa faixa ‘Minera Dor’, track que bate forte na catastrófica exploração corporativista de minérios.

Os românticos, em meados do século 19, olhavam assustados para a sublime floresta brasileira ainda intocada pelo homem, como se ela fosse um registro direto da criação pura e divina, algo esquecido no velho continente. De certa forma, isso se repete nas três faixas do EP, todos os ouvidos já acostumados às mesmas sonoridades e propostas, diante do trabalho talentoso de Trevo Ribeiro, se assustarão com a força de cobrança e de origem que o título de duplo sentido leva. A Mata Cobra, como o próprio autor a define, é fruto de uma miração de cipó em um cenário que carece de visão.

-Gustavo Ascencio

Gans – Rico (EP)

O artista candango Gans apresenta em seu EP de estreia, Rico, facetas incomuns para um projeto inicial. A começar pela qualidade extrema das produções, que possuem timbres complexos e variados, mas ainda mantendo uma sinergia entre todas as faixas. A coerência musical trazida em Rico encaixa perfeitamente com a origem de Gans, que sempre teve contato com a arte por vir de uma família de músicos.

Ainda sobre as produções, a mistura de instrumentos orgânicos tocados com elementos sintéticos, principalmente nas faixas ‘Lifestyle’, ‘Perfume’ e ‘Tão normal’, dão base melódica agradável para uso de autotune na voz do artista. A vibe de todo o EP perpassa a influência musical de Travis Scott, com adlibs com echo destacável, autotune carregado (usado com proficiência) e camadas expansivas nos instrumentais.

Os tópicos principais abordados são as vivências e os sonhos do artista. Ele descreve suas frustrações amorosas, o corre difícil como músico e a vontade de se consolidar no cenário, mesmo com vários desacreditando da sua qualidade. O simples fato do uso de termos não-aleatórios em inglês chama a atenção para qualidade de Gans, que demonstra um controle de suas composições ao determinar essa entrada pontual. Essas inserções dão continuidade à harmonia musical do projeto por não destoar da regular qualidade sonora apresentada.

Para um EP introdutório, Rico apresenta um rapper de muito potencial musical, que pode tanto cantar refrãos chiclete quanto rimar braggadocio com qualidade, tudo isso sobre instrumentais complexos. Porém, ainda precisa encontrar uma linha mais sólida e criativa ao tratar de temas mais profundos. Certamente, Gans é um nome que devemos nos atentar sempre quando apresentar um novo projeto. 

-Marco Túlio

Dabliueme – AQUI JAZZ

Poderia muito bem caracterizar um personagem para definir quem é Dabliueme nesse novo trabalho, porém o próprio MC faz isso melhor do que eu seria capaz logo na primeira faixa, quando canta o verso: “Rato de sebo garimpando o vinil”. Isso pois AQUI JAZZ é nota máxima no quesito recorte de samples e resgate da memória musical brasileira. Influências do samba, maracatu, manguebeat, bossa nova e a adição pontual de elementos do jazz formam a receita ideal para esse projeto.

Com 8 faixas, Dabliueme incorpora as próprias vivências em suas rimas e ainda percorre a temática das políticas públicas de apoio à cultura e suas problemáticas. Trata-se de uma espécie de ritual a grandes nomes da música brasileira que nos deixaram recentemente, e em seus últimos dias foram vítimas de uma indústria e público que não os valorizaram pela excelente construção musical de gêneros brasileiros. 

Com mais de 15 trabalhos lançados na carreira, é no mínimo controverso a adição de um MC com uma bagagem tão rica em uma sessão de Descobrindo, mas as portas têm de ser abertas para que toda essa sonoridade cubra o Brasil, e que Dabliueme seja “descoberto” para uma massa maior de ouvintes. 

-Go

Tvlyssxn – ATVDD

O trap é, de longe, o estilo mais popular de se fazer rap hoje no Brasil. Em meio ao número incrível de artistas na cena, é fácil passar despercebido, ainda mais quando não se faz parte do eixo Rio-SP. “Virou normal nós ser notado” rima Tvlyssxn, MC de Canoas-RS, em ATVDD, seu primeiro EP, lançado em 2020. E é impossível ouvir a música do rapper gaucho e não se surpreender com o talento e a criatividade.

Em cima de beats ora sombrios, ora etéreos, ele rima com diferentes flows, sempre com uma entonação calma e sem pressa sobre sua vida, experiências e amizades. Apesar disso, na sua música não falta energia: enquanto a percussão acompanha os loops do sample criando uma vibe tranquila, o baixo é potente, às vezes até completamente estourado de propósito (como na incrível ’27 Bala’, um dos destaques do EP). 

Não é só no casamento de flow e beat que o trabalho se destaca. Os refrãos do disco chamam a atenção e ficam na cabeça, sendo sempre muito bem construídos em conjunto com a melodia, mas ao mesmo tempo tendo um toque natural, como se tivessem surgido ao acaso. Com a qualidade da entrega no seu primeiro projeto, virou normal notar Tvlyssxn.

-Ravi Freitas

Citeli – Corre Pela Prata

Vindo do estado do Rio de Janeiro, mais precisamente Volta Redonda, Matheus Citeli lançou em 30 de abril desse ano seu EP de estreia, Corre Pela Prata. Contendo apenas 4 faixas, o trabalho se apresenta em performances de um boombap sombrio, em que os beats compostos também pelo artista, se encaixam sempre muito bem no flow e nos versos do mesmo.

O EP se inicia com a faixa ‘Intro’, com a participação de Vitor de Andrade. Nessa primeira faixa, um diálogo entre Citeli e Vitor, serve não só pra iniciar o EP, mas também pra trazer um pouco de seu conceito de vivência e resistência. O diálogo é rápido e a faixa fica a mercê de seu instrumental durante o resto da música, o que a deixa meio aberta e sem muitas conclusões, até que a faixa seguinte, homônima ao EP segue o beat da intro transicionando bem, sendo um beat muito bem resolvido pelo MC e pelo convidado J.L Mc, que acaba brilhando mais que o próprio anfitrião.

O auge do trabalho fica na terceira faixa, ‘Porcos de Aluguel’, um boombap futurista com lírica sobre política, sociedade e o lugar de Citeli dentro desse contexto. Nessa faixa dá pra sentir o rapper solto, fluído e confortável no beat, entregando um resultado redondinho para os ouvidos.

‘Resistência’ fecha o EP muito bem, pois retoma o diálogo da intro sutilmente, de forma muito bem trabalhada por Citeli, disposto a experimentar sua voz e seu flow. Por remeter a intro, o artista faz um movimento cíclico que justifica o conceito que não fica perdido. Corre Pela Prata com certeza cumpre bem o seu papel como EP de estreia e é uma bela entrada do MC dentro desse universo do rap fluminense.

-Isabela Bauretz

Estes nomes entrarão na edição de julho do compilado, mas até lá, confira a nossa playlist Descobrindo no Spotify! Lá destacamos tracks de muita qualidade que estão passando por baixo do radar.