Review: DMX – Exodus

Sua partida precoce, em abril deste ano, foi uma enorme perda para toda a cultura, que recebe, para aliviar um pouco de sua dor, este novo álbum

 

Earl Simmons, mais conhecido como DMX, foi um dos maiores rappers da história, ponto. Embora sua música não tenha chegado com tanta força ao Brasil quanto a de alguns de seus contemporâneos, alguns club hits como ‘X Gon’ Give To Ya’ e ‘Where Yo Hood At’ são reconhecíveis até por fãs de rap mais jovens. Sua partida precoce, em abril deste ano, foi uma enorme perda para toda a cultura, que recebe, para aliviar um pouco de sua dor, este novo álbum. 

Segundo Swizz Beatz, produtor executivo do álbum, Exodus seria o álbum de comeback do rapper, não uma obra póstuma; foi inclusive finalizado enquanto X estava vivo. Se esse fosse o caso, seria um comeback decepcionante, acima de tudo pela discrição do anfitrião em diversos momentos. Como última obra do MC, ver ele com tão pouco brilho não parece certo. Para se ter ideia, são necessários três minutos e meio até que a primeira linha do MC surja, além disso, ele ainda rima por último nas 4 primeiras faixas da tracklist. Isso não é ideal em nenhum lançamento para nenhum MC, muito menos como um projeto póstumo, o que poderia ter sido retrabalhado para melhor honrar o rapper.

Dito isso, temos material de qualidade no álbum. A sequência inicial mostra tracks diretas, onde cada um pega o mic, dá seu verso e fim. Em ‘That’s My Dog’ temos o refrão de Swizz para ligar tudo, além de um beat bem dinâmico por trás dos versos do anfitrião e dos frequentes colaboradores de X, The LOX. Aqui, Jadakiss tem o melhor verso, mas nada se compara aos três dados na track seguinte. ‘Bath Salts’ já é logo de cara a melhor faixa do trabalho, com três dos maiores da história batalhando sobre um divertidíssimo beat, com sons que lembram um trem dominando a track. Jay-Z vem primeiro em altíssimo nível, depois Nas mantém a barra alta e DMX fecha também com um excelente verso, seu melhor de um ponto de vista técnico. O nível é bem parelho, mas se for necessário declarar um vencedor, Nas toma este posto.

But love was abundant

Before the God got the “God’s Son” upon the stomach

Let these niggas know it was a feeling I would get

From music that they would come with (Talk to ’em, Nas)

Hate start with H ’cause the H come after a G (Right)

They won’t say it face to face, they say it after I leave

Após esse início, temos duas tracks onde nada impressiona muito. ‘Dogs Out’ e ‘Money Money Money’ funcionam com um anfitrião trazendo versos nada empolgantes, o mesmo valendo para as respectivas participações de cada track, Lil Wayne e, com menos destaque ainda, Moneybagg Yo. DMX tem o melhor verso em ambas, sobretudo na segunda, onde suas trocas de cadência e entonação se destacam. O segundo refrão, carregado pelo anfitrião, chega a ser empolgante num primeiro momento, mas cansa rápido; enquanto isso o primeiro só ocupa espaço.

Esposa do produtor executivo do disco, Alicia Keys brilha na excelente ‘Hold Me Down’. A track é a primeira que tem o dono do álbum mais dominante, com 2 versos muito bem escritos que tocam temas mais introspectivos, enquanto a convidada cuida de um excelente refrão. Chega a ser surpreendente como a voz angelical dela se encaixa bem com a voz mais áspera dele, tudo isso sobre um belo beat que lembra algo que Kanye West faria no Graduation. Outra track mais pop deixa a desejar, ‘Skyscraper’. A faixa tem um refrão um tanto brega e superficial, cortesia de Bono (U2). O beat, que nos versos traz uma energia mais divertida, também não combina da melhor forma com o que DMX entrega.

Antes de uma sequência final mais lenta, temos em ‘Hood Blues’, um último momento de fogo. Nele, DMX colabora com o trio principal da Griselda, cada um com um verso em um beat discreto mas divertido, dando espaço para que os artistas lotem de adlibs e rosnado, como é a marca do anfitrião. O problema da faixa? Os convidados não mostram nenhuma piedade por X, que deixa a desejar em seu verso e é facilmente o pior aqui. Benny vai bem mas não impressiona, Gunn se supera em um verso muito bom, mas é Conway The Machine que assalta a track a mão armada.

We was in the trenches, nigga, four chicken wings and rice

The shooter fourteen (Yeah), can’t read or write, but he gon’ squeeze his pipe 

We was tryna sell a key a night

Cause Nas said a G at night wasn’t good enough, and he was right

They mad I’m rich, the same niggas that wouldn’t see my plight

The Nets playin’, I’m ridin’ to the game with KD tonight, yeah

O trio final fecha o disco em alto nível. ‘Take Control’ é uma linda produção, baseada no sample de ‘Sexual Healing’, de Marvin Gaye. DMX fala de suas relações e sexo em um verso sólido, um destaque ainda maior vem no flow sempre calmo e cativante de Snoop Dogg no segundo verso, que é muito bom. Um grande momento chega em ‘Walking In The Rain’, onde as temáticas mais gangsta são largadas de vez e dão lugar a um DMX mais introspectivo, com ótimas linhas sobre suas relações e sua maturidade. A track ainda é sucedida por um refrão bem cantado por dEnAun e mais um verso de alto nível de Nas, dessa vez trazendo uma postura mais crítica sobre a polícia antes de atingir a temática de relacionamentos de X. 

O álbum tem como última canção propriamente dita a ótima ‘Letter To My Son’, que tem um instrumental mais acústico tornando ainda mais poderosas as linhas de X , falando sobre a relação turbulenta que ele teve com seu filho mais velho, Xavier. O verso curto dá lugar para uma linda participação de Usher, com um belo refrão, mas havia espaço para outro verso de X, que ambos deixaram para que ‘o ouvinte refletisse sobre o que foi dito’.

Como todo álbum de DMX, precisávamos de uma oração para fechar. Aqui, o ponto final vem com uma gravação de 2 minutos feita por ele no Sunday Service no Coachella de 2019. Um fim dramático e belo para uma carreira lendária, e também um encerramento justo para um bom álbum, apesar de seus defeitos.

Mesmo entendendo que se trata de um álbum que ele deveria ter lançado em vida, não soa certo que DMX tenha menos da metade das linhas no seu disco póstumo, o último projeto propriamente dito que ouviremos dele. De toda forma, com um bom trabalho, temos em diferentes estilos um último gosto do enorme talento que Earl Simmons teve. Se em ‘Walking In The Snow’ o refrão diz “eu nem sempre recebo minhas flores”, pode saber que agora você vai receber todas. Descanse em paz.

Melhores faixas: Bath Salts, Hold Me Down, Letter To My Son

  1. Gostei bastante da review.
    Hj de manhã fui escutar o disco pra ver o q achava do trabalho, e no geral senti os mesmos problemas q vc apontou, principalmente em relação aos versos. Algumas faixas soam até meio inacabadas pelo quão breves elas são. Se os instrumentais ao menos fossem mais enérgicos (ou explorassem mais os momentos de introspecção do earl) eles ao menos teriam mais impacto.
    É triste dizer isso, mas pra mim esse disco soa mais como um disco póstumo do q o disco de retorno de um cara do calibre do DMX. Mas, como vc disse, o saldo é positivo. Mesmo nas faixas mais fracas, não tem nada que vá manchar o legado dele….

    Mas não vou negar. Quando cheguei na faixa q ele fez pro filho eu botei ela no repeat e não saí dela até meu celular descarregar.

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