Review: Larinhx – EU GOSTO DE GAROTAS

Não estamos falando de “um ótimo trabalho para uma estreante”; estamos falando de “um ótimo trabalho”, ponto final.

Entre os apreciadores do hip hop, é frequentemente debatido como lançar um bom disco de estreia pode ser uma tarefa exaustiva. Mesmo que o MC (ou o produtor) não tenha que lidar com as expectativas de um público já cativo, ainda existe uma autocobrança de entregar um trabalho que não apenas seja sólido, mas que também consiga mostrar todas suas facetas enquanto artista. Se mal administrada, essa ansiedade pode fazer com que até o mais promissor debut soe mais como uma playlist de boas faixas que não conseguem dialogar entre si. Mas esse não é o caso da produtora/cantora e compositora Larinhx

Sob as asas da plataforma multimídia MangoLab, foi lançado Eu Gosto de Garotas, um projeto colaborativo guiado por Larinhx que une mais 12 artistas de diferentes estilos, todas mulheres, e que em menos de meia hora não apenas apresenta a versatilidade musical da anfitriã, mas também a usa para acomodar e potencializar o talento de todas as convidadas do disco. E tudo isso sem deixar que uma faixa destoe das demais. Como resultado, temos um trabalho que usa de cada autoafirmação individual para estabelecer uma atmosfera de independência pessoal e artística, que desafia noções ultrapassadas de gênero mesmo quando esse não é o foco.

Tal sutileza também se encontra na lírica como um todo. Ela pode não ter tanto destaque quanto a produção da Larinhx ou a performance melódica das convidadas, mas sempre encontra algum espaço para brilhar. Isso vai desde as faixas com punchlines mais afiadas, como ‘Palhaçada’ e ‘Trem Barbie’, aos sons que simplesmente abordam relacionamentos com uma qualidade e uma nuance que a maioria dos MCs não costuma entregar.

Exemplos disso já se fazem presentes logo em ‘Garotas Amam MC Rebecca’ e ‘Camisa 10’, onde Slain (na primeira), Ikinya e Ebony (na segunda) descrevem os percalços e o companheirismo de uma relação afetiva. São faixas bem descontraídas, em especial pela dinâmica entre as guitarras e os fortes graves ao fundo com os versos melódicos das três, que são repletos de sílabas esticadas e pequenas modulações na voz para que também sejam tão marcantes quanto seus refrães. Ainda assim, há um esforço consciente em demarcar quem são essas personagens e o que elas também precisam enfrentar para se expressarem. Não são do tipo de música feita para que qualquer um se identifique, e é justamente isso o que as torna especiais.

Seguindo para as faixas mais afirmativas, temos ‘Palhaçada’, que é o primeiro ponto mais alto do disco. Com um braggadocio sexual à la Nicki Minaj, mas também com clara influência do funk putaria atual, Slipmami entrega uma impressionante sequência de barras durante a track. A batida pode não ter nenhum elemento que a diferencie de um trap de flauta padrão, mas até seu minimalismo acaba se pagando pela performance da MC – até por que um verso que mais parece um aglutinado de ganchos e pré-refrães, como é o caso, poderia não funcionar tão bem quanto uma estrutura de rima padrão numa produção mais elaborada.

Já ‘Toca DJ’ é bem mais explícita nas suas influências musicais, contando com participação da reconhecidíssima Deize Tigrona para impulsionar a track. É uma faixa bem enérgica, em especial pelo sintetizador durante o refrão e pela outro que, em muito, remete ao funk dos anos 2000. Talvez até demais, pois o som parece mais uma cápsula do tempo do que uma faixa atual . Ao menos a mescla de referências volta a funcionar em ‘Trem Barbie’ e ‘Sequência de Toma’. Na primeira, funciona por apresentar uma bateria frenética após a segunda metade do som, e ainda variar os timbres de seus sintetizadores para contrastar com a performance irreverente da MC Lizzie. Já na segunda, o sucesso se dá por contrastar o bpm e a guitarra espaçada com o flow em constante urgência da Shury. Como resultado, essa trinca ganha um forte senso de conexão, fazendo com que até as linhas mais banais se tornem interessantes, ainda mais quando são bem escritas.

Só barbie bandida

Nós é abusada, nós é debochada

Nós é atrevida

Terror da balada é nós quem abala

Com a nossa presença

Então dá licença

A barbie na pista

Chega tipo artista

Com o nome na lista

E faz a diferença!

A partir desse ponto, o disco começa a seguir para o R&B, mas não sem antes passar por ‘Preta Gorda’.  A track até faz uma competente  transição entre o seguimento do funk e a sonoridade que logo a sucede, com o flow dinâmico e impositivo da Damatta sobrepondo a suavidade do instrumental e do refrão, mas acaba perdendo o seu brilho com as inúmeras citações aleatórias dos lugares onde a convidada já viajou.  Felizmente ‘Neon’, garante que o projeto retorne ao alto nível que o iniciou, tanto pelo belíssimo vocal inicial da Ciana, como pela ótima virada na batida que ocorre quando ela entrega o seu verso. É uma faixa cuja suavidade melódica remete muito aos refrães da black music nos anos 90.

‘Hidromassagem’ também é um grande momento para o disco, em especial para Larinhx, já que nesse faixa é a própria anfitriã quem segura o microfone. Sua performance é uma das mais agradáveis durante essa reta final, preenchendo os espaços da batida para que a balada romântica soe o mais anestesiante possível. Na sequência, em ‘Flores’ temos o melhor verso do disco, performado por Amanda Sarmento. Um esquema de rimas com apenas duas variações até soaria simplório atualmente, mas a forma que a MC vai alongando o final de cada barra ao ponto do verso parecer um canto é o que o torna tão magnético e tão bem alocado na tracklist.

Sem manha, disponha e me arranha

Eu boto o rash e você curte a onda

Sou uma mulher que sonha,

Tenho visão mais ampla, faço minha própria grana

Sou tipo uma cigana, a estrada é que me chama

 

Alucinada e tonta

Avançada e negona

Eu não tenho vergonha,

quem não bateu apanha

Eu sou minha própria dona

Eu sou minha própria dona…

O disco se encerra com ‘As Mina Preta’, tendo Valen para cuspir as últimas barras. E, apesar de algumas serem realmente boas (Branco agora é nova cor do luto), elas acabam não indo muito além de uma autoafirmação descontraída. De toda forma, a variação nos flows e nos timbres da MC acabam compensando o verso até a chegada do seu refrão. E como a produção também aposta em tambores e viradas de bateria típicas do funk pop atual, fica ainda mais nítido como a anfitriã consegue dar holofote ao que cada MC tem de melhor, e minimizar ou desviar o foco das suas atuais limitações.

E é isso o que se espera de um álbum de um bom produtor. Diferente de um álbum convencional, onde o MC só precisa lidar com as próprias derrapadas na escrita e na performance, o produtor também precisa gerir os pontos fortes e fracos dos demais participantes, direcioná-los ao melhor que podem chegar naquele momento e ainda buscar a configuração que melhor demonstra a evolução que apresentaram no processo. É uma jornada dupla – às vezes tripla – muitas vezes ingrata. Felizmente Larinhx saiu vitoriosa.

Se os próximos lançamentos também contarão com um grande número de participações, ou irão explorar seus outros talentos no microfone, fica a critério dela. Mas a qualidade em Eu Gosto de Garotas pode ser identificada e sentida por qualquer ouvinte, seja na lírica, na produção ou na performance. Não estamos falando de “um ótimo trabalho para uma estreante”; estamos falando de “um ótimo trabalho”, ponto final.

 

Melhores Faixas: Palhaçada, Flores, Neon e Hidromassagem.