Review: Jovem Dex – ÉTPM?!

Para quem cobra evolução do público ao invés dos artistas de trap, Dex mostra que realmente não tem intenção de evoluir o som que é feito no cenário

Desde que a cena do rap nacional abriu as portas para artistas fora do eixo Rio-SP, a Bahia vem consistentemente criando estrelas. Seja no mainstream, com Baco, ou no underground, com Vandal, o estado é origem de grandes nomes do movimento. Jovem Dex é um dos mais recentes artistas a entrar nessa lista empilhando hits com seus singles. Agora, com o lançamento do seu primeiro álbum, É o Trap Memo?!, o MC consolida o sucesso digital que seus primeiros singles alcançaram.

Enquanto o título do álbum deixa bem claro o que Dex busca pro disco, ele realmente “é o trap memo”? Levando em conta a quantidade de fórmulas batidas da cena nas quais o projeto se escora nos seus assuntos e beats e rimas apenas reproduzindo o que foi feito por artistas que vieram antes, pode-se afirmar que sim. E não demora para se perceber essas fórmulas sendo aplicadas de maneira semelhante aos seus contemporâneos. 

‘Tapa’ é a música que abre o disco e um dos maiores sucessos do artista. Com produção de Paiva e Lotto, o beat tem loops de instrumentos de música clássica, 808s potentes e hi-hats rápidos e ativos, no entanto, chama pouca atenção se não fosse o violino e instrumentos de corda ao fundo. Se o beat da música não se destaca, o refrão faz isso por ele: a repetição da palavra “tapa” (24x ao todo) aponta para uma falta de criatividade também encontrada nos versos repletos de braggadocios sobre dinheiro iguais a tantos outros.

Essa falta de criatividade, já esgotada nos seus primeiros singles, se repete não só no refrão da música inicial, mas ao longo de todo o álbum. Em faixas como ‘O Negro e a Grana’, um interlúdio formado apenas por um refrão e uma gravação de conversa, a palavra “rockstar” é repetida 32x no refrão. Já ‘Fogo’, conta com dois pré-refrãos: um em que ele repete a palavra título por 20x e outro em que ele repete “fuego” por 22x.

Entre outras fórmulas do trap, a mais presente no disco inteiro é sem dúvida a influência das expressões americanas nas rimas. Na música que dá nome ao disco, ‘ÉTPM’, o rapper rima “vibe”, “party”, “shawty” e “trap life”, com um refrão que também se baseia na repetição de palavras (dessa vez “cash”, repetida 11x). As participações de Yunk Vino e MC Igu seguem os mesmos clichês do artista principal.

Em ‘Popeye’, música salva pela produção de Wey que utiliza bem sintetizadores e o grave, são diversas referências a “bitch” “shawty” e “slime”, seja no verso de Dex ou no verso de DomLaike, feat da faixa. Mas com certeza a pior ofensa seguindo esse método formuláico de fazer trap está em ‘Goat’ (sigla americana para “maior de todos os tempos”): além das diversas referências a drip, rollie e o próprio nome da track, o rapper utiliza repetidamente (em excesso!) a expressão “suwoop”, grito de guerra dos Bloods, gangue norte-americana que, sem dúvida alguma, o Jovem Dex não faz parte.

Até a produção, que geralmente é o ponto alto de um disco de trap, parece ter sido feita sem muita consideração por qualquer tipo de ideia diferente ou mudança. As raras exceções facilmente saltam aos ouvidos, como a ótima ‘Obama’ e suas linhas de baixo que lembram o groove do rap de New Orleans, ou ‘Flow L.G.’, uma track extremamente dançante com sample de Luiz Gonzaga. Ambas tem produção conjunta de Brandão85 e Leviano, que também ajudam a salvar as músicas com versos divertidos e flows empolgantes. A dupla também está presente em ‘Papparazzi!’, novamente roubando a cena, só que dessa vez num simples, porém divertido, beat produzido por JD On Tha Track e SuperStarO.

‘Rambo’, produzida por Maff, lembra o trap do início da década passada, de artistas como Lex Luger e Waka Flocka, e consegue até dar espaço para um flow divertido do MC pelo verso. Por outro lado, algumas músicas são tão puxadas para baixo pela caneta de Jovem Dex que nem bons beats conseguem salvar. ‘Tropa do D!’, com produção de Jxvem Blvk, é uma faixa que mistura riffs de guitarra sujos com 808s pesados, lembrando instrumentais que o Travis Scott rimaria sobre, porém aqui desperdiçada para que o rapper rime coisas como:

Eu não sou Voldemort, mas faço a magia

Embolo a grana no elástico, ahn

Ninfeta fez 18 e quer putaria

Eu ‘tô tipo cacique, fazendo nevar

Eu não tenho nada a ver com a Globo

Mas meu mundo é fantástico

Assim como artistas como Playboi Carti, Dex faz músicas curtas, raramente passando dos três minutos, pulando de uma ideia para outra sem desenvolvê-las, sempre deixando a anterior após mais uma leva de refrão, verso e refrão. Diferente de Carti, porém, cujas ideias são mais inovadoras, o trapper brasileiro repete ideias de outros artistas sem nenhuma marca pessoal além da sua voz marcante.

Para quem cobra evolução do público ao invés dos artistas de trap, Dex mostra que realmente não tem intenção de evoluir o som que é feito no cenário, apenas replicando fórmulas já conhecidas de sucesso. Mas, com a pouca idade do artista e o talento para fazer hits que agradam o público do trap, ele tem bastante tempo pra isso.

 

Melhores faixas: Obama, Flow L.G.