Review: MV Bill – Voando Baixo

Um trabalho que é mais enxuto que seu antecessor, mas que ainda soa aquém do que o rapper já ofereceu e ainda pode oferecer

Quando se pensa nos maiores nomes da história do rap nacional, é difícil não pensar no MV Bill. Seus dois primeiros álbuns, Traficando Informação e Declaração de Guerra, são considerados clássicos até hoje, principalmente por sua habilidade em desenvolver histórias imersivas sob perspectivas que eram incomuns para o rap até o início dos anos 2000. Suas ocasionais modulações de voz e flow podem não ser tão celebradas quanto o seu storytelling, mas ainda é possível notar a influência delas em alguns MCs da geração atual, principalmente no RJ.

Com o passar do tempo, novos nomes foram se firmando no cenário nacional e, junto com eles, foram aparecendo novas abordagens temáticas e sonoras. Enquanto muitos nomes da Velha Escola torciam o nariz para o que havia de novo no rap, o Tio Bill sempre se manteve aberto, colaborando com os que vieram depois e até mesmo explorando novas sonoridades, como nas famosas ‘Favela Vive 2’ e ‘Poesia Acústica 4’ e na memorável ‘Cidadão Comum’, que inclusive bebia do Grime quase duas décadas antes dele se tornar uma tendência no Brasil. Apesar desses incontestáveis méritos, seus álbuns foram gradativamente perdendo impacto e qualidade. Seu penúltimo disco, Vivência, apresentava uma ausência de coesão tão grande que fazia as suas 17 faixas trabalharem umas contra as outras quando ouvidas em sequência. Quase 1 ano depois e temos Voando Baixo, um trabalho que é mais enxuto que seu antecessor, mas que ainda soa aquém do que o rapper já ofereceu e ainda pode oferecer.

Sonoramente o projeto chega a ser coeso. Sendo ele produzido majoritariamente pelo também consagrado DJ Caique, já seriam de se esperar loops soturnos com a presença de algum instrumento de tecla ou de sopro mais ao fundo para dinamizá-lo. Isso contribui para a atmosfera de conscientização e reafirmação que o disco possui, já que a sonoridade de seus maiores sucessos também seguia por essa linha. O problema são as letras que pouquíssimas vezes focam num único raciocínio, o que torna a maioria das críticas e reflexões superficiais.

Isso é perceptível desde as primeiras faixas do disco. ‘Esgrima’, por exemplo, começa com uma interessante colagem de diversas personalidades da mídia apresentando o MC, como forma de demonstrar os espaços onde ele já chegou. Mas, o verso que a sucede não dá nenhum indício do que o ouvinte pode esperar das próximas faixas, além de rápidas citações ao contexto político atual e a pandemia que ainda nos assola. O mesmo se dá em ‘Bocejo’, que até arrisca alguns versos mais técnicos, mas a falta de uma construção mais cuidadosa faz com que as pausas no beat tenham pouco impacto e as rimas pareçam mais importantes do que a ideia em si.

Todo mundo viu

Inocente sendo levado pro Cemetery

Fuzilados covardemente pelos Military

Rever a conduta é muito necessary

Já tinha dado esse papo e não sou visionary

Por mais incrível que possa parecer, as músicas que mais possuem um direcionamento são as “quase lovesongs”, mas o fato das três virem sequencialmente e nenhuma delas se encaixar com a proposta do álbum faz com que pareçam ser um EP sobre relacionamentos dentro de um álbum sobre a política nacional. Poderia ser interessante a ideia de um “firme e forte, até que do nada isso acontece”, mas ‘Sintonia Real’ faz esse contraste parecer não intencional, já que ela possui um delivery sombrio que em nada dialoga com os versos e o refrão puramente românticos. Desse modo, ‘Última Forma’ e ‘No Calor da Emoção’ – que até utiliza um sample de blues para intensificar a ideia de uma perda amorosa – acabam chegando sem uma construção eficiente. E o álbum prosseguir como se nada tivesse acontecido torna esse momento ainda mais deslocado.

Apesar desses tropeços, o projeto tem bons momentos. ‘Nossa Lei’, por exemplo, usa uma repetição de teclado e uma corneta abafada para transmitir uma ideia de urgência, o que impulsiona a voz e o verso do Tio Bill. Mas quem rouba o holofote é Stefanie, que fez uma sóbria e inusitada referência ao reality show mais popular do país. Considerando que muitos MCs ainda associam name-dropping a conhecimento, é digno de nota quem caminha na contramão.

Humilham um dos nossos, não é coisa que se faça

Tem gente que vai ao extremo e o limite ultrapassa

O júri da internet é o linchamento da praça

O jogo veio pra rua e a família sofre ameaça

Famosa manipulação em massa. Não pegaram a visão?

A luta perde com a nossa divisão.

Não me enganam. Sei que nunca sentiram a nossa falta.

Essa Casa só tá cheia de preto porque viramos pauta.

Outras faixas que têm um saldo positivo são ‘Milicítico’ e ‘Essência’, em especial pelos seus instrumentais que sutilmente mostram como sua mentalidade continua aberta para o novo (sendo representado pelos sintetizadores no beat do Tibery), mas também devota ao rap noventista que sempre o influenciou. As duas são um tanto irregulares na lírica – em especial a primeira que faz diversas contraposições banais entre o povo e a política partidária – mas, ainda possuem algum direcionamento temático. Já  ‘Noiz Mermo’ e ‘Voz de Cria’ se beneficiam do estilo livre para potencializarem as punchlines de cada MC. Infelizmente, o anfitrião acaba sendo ofuscado em ambas as tracks, sendo na primeira pelo bom esquema de rimas do Lord e na segunda pela caneta do Nocivo Shommon, que sempre se destacou mais em faixas sem muito foco.

De toda forma, ‘Muito Obrigado (rip)’ consegue fazer o disco terminar bem, resgatando a velha tradição da faixa-de-salve para reafirmar novamente a importância da Velha Escola. Mas é a falta de comentários aprofundados o que mais prevalece no projeto. Há algum nível de crítica à  corrupção e à democracia representativa aqui e ali, mas até nesses casos o comentário entra mais no campo da moral individual do que na estrutura que mantém essa desigualdade. E isso faz com que a mensagem soe incompleta.

Também é estranho a presença de tantos áudios ressaltando a importância do Tio Bill. É sabido que muitos veteranos ainda sofrem com um apagamento por parte da cena, mas isso com certeza não se aplica ao maior MC da Cidade de Deus. Relembrar o passado é fundamental, mas fazer isso em demasia pode interferir numa análise mais precisa da atualidade, seja numa urna eletrônica ou no microfone.

Num geral, Voando Baixo não é um disco ruim, tem as suas falhas, e não são poucas as ideias que parecem ter sido apressadas antes de amadurecerem, mas nenhuma delas será capaz de manchar o grandioso legado do Mensageiro da Verdade. Por outro lado, nenhum dos seus acertos é forte o bastante para engrandecê-lo ainda mais.

Melhores Faixas: Nossa Lei, Milicítico, Essência e Voz de Cria