Classic Review: Racionais MC’s – Nada Como Um Dia Após O Outro Dia

Este é o disco nacional cujas faixas têm maior presença no imaginário do país desde Racional, do Tim Maia

Se hoje o Racionais MC’s é, de forma indiscutível, o maior grupo da história do rap no Brasil, esse status veio ainda no século passado. Após o impacto dos primeiros trabalhos e hits, Sobrevivendo No Inferno (1997) vendeu mais de um milhão de cópias, alçando o quarteto a um status mainstream que quase ninguém possuía na cena, quebrando a barreira do nicho e das favelas. Passados cinco anos, era enorme a expectativa para seu novo passo, com todos os olhos não só do rap, mas de toda a música, voltados para KL Jay, Mano Brown, Edi Rock e Ice Blue. E o resultado de Nada Como Um Dia Após O Outro Dia (2002) passou o mais longe possível de decepcionar.

Quando se escreve sobre um clássico antigo existem dois caminhos possíveis a seguir: o de trazer uma ótica atual ao disco e o de levar seu olhar para a época de seu lançamento, evitando ser anacrônico. Mas, neste caso em particular, tanto faz: Nada Como Um Dia se sustentaria como clássico hoje, quase 20 anos após seu lançamento, como foi um clássico instantâneo lá em 2002.

O álbum num geral se desconecta dos dias atuais por apenas três pontos importantes. O primeiro e o mais grave, claro, é o machismo latente nas letras do grupo. Esse tipo de narrativa, em grande parte fruto de seu tempo, está presente em diversos momentos do disco, coisa que felizmente os integrantes entendem a gravidade, inclusive com músicas cortadas dos setlists atuais. Outro problema em 2021 seria a duração: 1h50 de álbum com quase todas as músicas de fato ultrapassando os 5 min de duração (as únicas exceções são De Volta à Cena e Otus 500), com seis tracks passando dos 7 minutos e mais de 25 minutos gastos entre falas e skits, o que causaria um ataque cardíaco em qualquer gen Z. A outra questão, mais óbvia, é a mixagem, onde as tendências se alteram com certa frequência no mundo da música.

Superadas estas questões, o álbum é muito bom mesmo com os ouvidos dos dias atuais. Parte disso se dá por, infelizmente, as temáticas de criminalidade, abandono político das quebradas e preconceitos socio-raciais se manterem atuais duas décadas depois de quando foram escritas; mas também, e principalmente, pelo alto nível técnico apresentado pelos artistas ao longo do trabalho. O beat de Da Ponte Pra Cá, uma das maiores tracks do grupo, poderia figurar em qualquer álbum atualmente e seria tratado como fora da curva, com graves fortes e múltiplas camadas de percussão numa produção espaçosa para o brilho de Brown. 

A Vítima é outra produção totalmente à frente do seu tempo, com um sintetizador sujo, vocais que parecem ser de canto gregoriano no fundo e baterias mais ao fundo do que era o costume da época, dando uma atmosfera totalmente obscura para a track. Sintetizadores e cordas aparecem quase sempre no fundo das baterias para dar ambientações que complementam o que é rimado, de forma que uma remixagem/remaster tornaria vários dos instrumentais do trabalho prontos para serem lançados em 2021. O uso dos samples também é magistral, puxando referências que vão de Al Green a Marvin Gaye.

Outro fator técnico, obviamente, é a caneta. Racionais sempre esteve no topo pela questão lírica, e aqui é um verdadeiro show de barras citáveis. Acima de tudo, a habilidade no storytelling dos dois principais MCs, que já se destacara muito nos trabalhos anteriores, aparece ainda mais refinada, criando verdadeiros roteiros cinematográficos. Eu Sou 157 é um exemplo disso, onde Brown é totalmente detalhista ao descrever a descoberta de um policial à paisana no primeiro verso, e depois, toda a ação e as angústias passadas em um assalto que dá errado. Vida Loka pt. 1 é outro exemplo de narrativa bem feita por Brown, onde o MC se apoia na intro para contar os fatos e refletir sobre uma emboscada feita à sua casa no primeiro verso.

Apesar das faixas mais lembradas do disco serem dominadas por Brown, Edi Rock encontra seu ápice absoluto aqui, em termos de rima e de narrativa. Este é o álbum com a maior participação de Edi em um projeto do grupo, tendo 43,8% das barras (contra 44,8% de Mano Brown) e ele raramente desperdiça alguma.  Expresso Da Meia Noite, a faixa mais obscura do disco, conta com uma ótima narrativa do MC sobre suas visões em um rolê da favela, em cima de um beat soturno que complementa bem o clima. A Vítima é o ápice do storytelling de todo o álbum, onde Edi fala sobre um acidente de carro que protagonizou em 1994 que acabou com uma morte. Nessa track, totalmente subestimada, Edi conta sobre o acontecido com detalhes, e depois os desdobramentos com a justiça. Aqui, além de narrar, ele expõe seus sentimentos, agonias e dores de todo o processo, valendo-se de artifícios como toque de celular, falas de  interlocutores ou sons de trem para complementar o filme que se passa na track.

Elevador quebrado

Tem dia que é melhor não acordar que dá tudo errado

Fui pela escada contando cada degrau

Cada passada chegava o juízo final

Tive a sensação de alguém me olhando

Parecia me seguir, tava ali me gorando

Senti um calafrio

Recordei daquela cena que você não viu

Do capote, de um grito forte, dos holofote

Um vacilo seu já era, resulta em morte

Daquela Kombi velha partida ao meio

Daquela hora que eu tentei pisar no freio

Andar por andar, onde eu tô não importa

Lembra da vítima? Cheguei na porta

Deve se destacar também a parte conceitual do trabalho. O álbum é dividido em dois lados: “Chora Agora”, com as 11 primeiras faixas, e “Ri Depois” com as 10 últimas. Eles levam um conceito semelhante ao de yin yang, com o primeiro disco mais obscuro, focado em crimes e dificuldades de vida, enquanto o segundo é mais focado na esperança e bons momentos dessa vivência.  Se Vida Loka pt. 1, primeira música de fato do álbum, tem um Brown mais preocupado e inseguro com sua vida no Capão, a parte 2 vem na reta final, com o MC entregando versos incríveis e dando um ar de esperança ao colocar a figura bíblica de Dimas como o primeiro vida loka da história, aquele que, após uma vida de crimes, se arrependeu na cruz e foi aceito. A produção de ambas as faixas é incrível, com a primeira apresentando cordas e bons loops para complementar o boombap da bateria e a segunda (que tem Mano Brown como produtor primário) apresentando uma linha de baixo totalmente dinâmica por trás da corneta em tom fúnebre. Essa dupla é ouro puro.

Os lados se conectam por passagens de um extremo que se assemelham mais ao que se praticou no outro, dando uma coesão maior para o trabalho como um todo, com a presença de, por exemplo, 1 Por Amor, 2 Por Dinheiro no lado A e de Expresso da Meia Noite no lado B. As construções temáticas das faixas e sequências são extremamente cuidadosas, nunca deixando que o ouvinte esqueça da esperança ao ouvir o primeiro disco ou das dificuldades ao ouvir o segundo.

O álbum é repleto de passagens faladas, muito úteis para conectar tudo e não deixar que o ouvinte perca as ideias da mente.  O álbum começa com o bom dia da Rádio Exodus na intro Vivão e Vivendo, impulsionando o ouvinte para luta, e se encerra com a volta da rádio já após a meia-noite em Da Ponte Pra Cá, onde, após um dia difícil, se dá um bom rolê pelas quebradas de São Paulo, fechando tudo em uma energia muito mais positiva (Pros moleque da quebrada, um futuro mais ameno, essa é a meta). Outro exemplo da relevância dos monólogos aqui é o skit 12 de Outubro, que mostra uma profunda reflexão de Mano Brown ao falar sobre como questões pontuais, como o tapa de uma mãe, podem impulsionar maldade e rancor no coração de alguém que é esquecido pelo governo; essa ideia se liga diretamente com a faixa seguinte, Eu Sou 157.

Questões conceituais à parte, este é o disco nacional cujas faixas têm maior presença no imaginário do país desde Racional, do Tim Maia. É uma coleção incrível de hits, estando eles espalhados ao longo de todo o disco, da primeira até a última canção. Além das várias já citadas, temos também Jesus Chorou, possivelmente a faixa mais bem escrita de toda nossa história, em que o líder do grupo se vale de uma introspecção praticamente sem precedentes em seu catálogo. 

A intro da track é uma verdadeira poesia de rua e abre o caminho para linhas confessionais de Brown ainda antes do beat dropar, quando mostra mais uma bela linha de baixo ocupando os espaços deixados pela bateria, acima de um sintetizador que dá o clima mais soturno. No primeiro verso a performance é muito criativa, com Brown enfrentando seus detratores e inimigos, respondendo às críticas que vinha recebendo de pessoas do rap e da quebrada, usando de diferentes vozes para interpretar cada personagem que está falando em cada momento. No segundo verso temos a mesma vibe introspectiva e agora o rapper luta mais com seu psicológico, fechando com o MC encontrando nas palavras do pastor um pouco de paz que sua mente não lhe permitia.

Vermelho e azul, ho-tel

Pisca só no cinza escuro do céu

Chuva cai lá fora e aumenta o ritmo

Sozinho, eu sou, agora, o meu inimigo íntimo

Lembranças más vêm, pensamentos bom vai

Me ajude, sozinho penso merda pra carai

Embora a maioria dos clássicos do disco venham na voz de Brown, Edi Rock é o MC dominante em duas das faixas mais marcantes do álbum. A primeira é Estilo Cachorro, que mostra a caminhada de um homem da quebrada tão narrada na história do Racionais, mas agora visto em sua vida social e com as mulheres. Embora a temática tenha envelhecido mal, o beat puxado para o G-funk é um dos mais marcantes da nossa história, tornando uma audição sem balançar a cabeça uma tarefa praticamente impossível. Essa também é a faixa que mostra a maior aparição de Ice Blue, que, ao longo do álbum, trabalha muito bem como um complemento aos dois MCs primários, entregando rápidas explosões de energia e mostrando muita química para fazer o back-and-forth com seja lá quem estiver no mic.

A outra faixa que Edi domina é a marcante Negro Drama, talvez a música mais conhecida do grupo. A produção da track é totalmente pegajosa, com teclado e guitarra ocupando bem demais o instrumental. A track tem Edi Rock e Brown se completando, cada um desenvolvendo seu verso sobre a vivência do preto na favela, com Edi Rock num flow mais contido e delivery forte falando do lado mais difícil, e, na segunda parte, Brown mais inflamado, cuspindo barras voltadas para um lado auto-afirmativo, sendo dois versos de altíssimo nível. O primeiro se destaca demais tecnicamente, como é visto no esquema a seguir do Redescobrindo o Rap: 

Seja por seus clássicos ou por suas faixas escondidas, encontramos uma obra que é praticamente perfeita, não entregando uma track ou verso ruim, conseguindo sucesso crítico e de público e um impacto absurdo, firmando o Racionais como um dos grupos mais relevantes em toda a história da música brasileira. Este disco é simplesmente irretocável. 

No fim das contas, 1 hora e 50 minutos passam voando. Seja pela qualidade das músicas, seja pelas histórias que prendem o ouvinte mesmo quando se trata só de uma fala, Nada Como Um Dia Após O Outro Dia é um álbum para se ouvir de cabo a rabo sem se cansar. Para qualquer rimador, para qualquer produtor, para qualquer fã de rap, este é o material de estudo mais completo que se pode ter. Segundo o conceituado Prêmio Hutuz, o álbum do Racionais foi o melhor do ano de 2002 e da década 2000. Mas é possível ir mais longe: este é o melhor álbum já feito no rap nacional.

Melhores faixas: Vida Loka pts. 1 e 2, A Vítima, Negro Drama, Jesus Chorou, Da Ponte Pra Cá

 

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