Classic Review: Emicida – Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe

Entre samples chiados, versos embaçados e um olhar único para captar o mundo e a vida que lhe dá tom, Emicida constrói seu primeiro clássico.

Emicida tem alguma coisa com títulos longos. Em sua discografia já são no mínimo três deles, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa… (2015), material fruto de sua viagem ao continente africano, O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013), sua poderosa transição das mixtapes aos álbuns e Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida Até Que Eu Cheguei Longe (2009) a lendária mixtape que deu início a tudo. Existem os médios também como Doozicabraba e a Revolução Silenciosa (2011), resultado da parceria de sucesso com a dupla norte-americana Beatnick & K-Salaam, e Sua Mina Ouve Meu Rap Tamém (2010), quando o rap nacional começava a quebrar barreiras temáticas. Ah, e os curtos, claro, AmarElo (2019) o mais recente e conceitual de todos e, por fim, Emicídio de (2010) a mixtape que caiu como uma bomba na cena.

No entanto, a trinca dos grandes títulos é o grupo que mais se destaca por sintetizar períodos fundamentais para a carreira de qualquer um. Sobre Crianças trata-se do artista que finalmente se encontra e compreende de forma mais fecunda e completa suas raízes e motivações, o que muda sua arte como um todo para sempre; para chegar a este ponto, é necessário amadurecer primeiro, esse é o papel d’O Glorioso, quando MC e sua produção se aprimoram comercialmente ocupando um espaço que já era seu, por isso o retorno de quem nunca esteve; e, para que se amadureça, antes é necessário nascer e é aí que se encontra Pra Quem Já Mordeu.

Emicida já tinha todas as atenções do cenário antes mesmo de 2009, com seu raciocínio mais rápido e vocabulário mais vasto que a maior parte de seus adversários, acumulou títulos nas mais importantes batalhas de MCs da época, sendo assim, seu primeiro projeto viria como uma consequência natural e necessária de todo o seu vigor e sucesso no mundo do improviso que, naqueles dias, funcionava como um verdadeiro celeiro de talentos. Em maio daquele mesmo ano, surgiria Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida Até Que Eu Cheguei Longe, sua mixtape de estreia que, um ano depois, atingiria a impressionante e inédita marca de dez mil cópias vendidas de forma independente. 

Essa autonomia total perpassa pela presença do artista em todas as fases do processo. Como um verdadeiro artesão, atento e cuidadoso a cada etapa de sua manufatura, Emicida se contrapôs a uma concepção industrializada de música enquanto arte comercial que, inclusive, se mantém estagnada e imutável pelas velhas engrenagens da indústria fonográfica até os dias de hoje. De mão em mão, consolidou um formato de produção e comercialização artística no cenário, foi inspiração para uma nova safra inteira de MCs que viram, finalmente, uma nova brisa inspirar e tornar frutífera uma cena há muito carente de evolução. A clássica mixtape virou uma chave não apenas na vida de Leandro Roque de Oliveira, mas também no Rap Nacional todo, sendo um dos (senão o) debut mais importante do rap brasileiro desde Holocausto Urbano.

Trata-se de uma mixtape no sentido mais restrito da palavra, 25 tracks organizadas de forma sequencial, onde o fim de uma se torna contínuo ao começo da próxima. Tematicamente variada, o que a amarra sonoramente são suas influências de samba, jazz e soul em loops caseiros e por vezes simplórios; na composição, a coesão se dá por meio de uma das maiores performances como cronista já presenciada na cultura, rememorando e, de certa forma continuando, um papel muito bem executado por nomes como Shawlin nos anos 2000, antes da guinada ao trap. Como narrador, vai ao storytelling sofisticado e imbricado, assume o ponto de vista de amigos para contar suas passagens, felizes e tristes, além de, obviamente, descrever sua própria história; tudo em um espetáculo de abordagens variadas e enorme rigor técnico. Entre samples chiados, versos embaçados e um olhar único para captar o mundo e a vida que lhe dá tom, Emicida constrói seu primeiro clássico.

A própria Intro (É Necessário Voltar ao Começo) é um poderoso exemplo disso. Leandro começa em um potente fluxo de consciência spoken word sem pressa alguma e discorre sobre raça, solidão, rap, dilemas, confusões numa mistura de influências e poderes que não o consomem, mas existem. Forte o suficiente e dotado de uma autoconfiança que o mundo considerava impossível alguém como ele possuir, Emicida rima com maestria sobre a belíssima produção soul do respeitado grupo underground do ABC paulista, Projeto Nave, em completa sinergia.

O olhar fino para captar as nuances de seu tempo, recurso necessário a grandes artistas, no entanto, surge mesmo na sequência Sozim, Rotina e Pra mim… (Isso é viver). No primeiro momento, a simplicidade da produção ganha ares soturnos e lentos para acompanhar a inércia proposta pelo MC em uma letra que funciona ao mesmo tempo como uma ode e elegia à solidão quando se descobre o lado mais obscuro sobre ser “o único representante do seu sonho na face da terra”. Logo em seguida, a solidão vai se positivando mais enquanto um estado de espírito em Rotina, onde o jovem rapper paulista de forma simplesmente implacável e imparável, preenchendo a maioria dos tempos de cada compasso que o loop lhe oferece, não desperdiça linhas e prova toda a força do seu trabalho de arte feito no silêncio das madrugadas. A terceira track traz de fato a calmaria para esta rotina, teclados e guitarras recortados e mixados com imperfeições, que em menos prejudicam na audição e em mais transmitem esta estética casual e sincera, setam o clima para Emicida agora dançar pelo instrumental com toda sua ginga de freestayleiro, além de deixar bem claro, não pela primeira nem última vez, que usa o rap para enxergar o mundo e suas leis.

Apesar de demonstrar uma fala mais branda nessas passagens, Emicida, naturalmente, dada a sua criação em batalhas e fama que lhe rendeu o nome, também demonstra em numerosas oportunidades que sabe bater forte. Mais ao rap são os casos de E.M.I.C.I.D.A. (Adoooro) e Vai Ser Rimando, a primeira no clássico formato de statement em que o MC coloca suas cartas na mesa e prova por A+B o seu valor diante dos adversários, tudo em um beat extremamente forte de NAVE, com bumbos que descem como socos e pratos que chiam como o impacto destes. Já na segunda música, vai mais a uma homenagem ao ofício de MC, em meio a juras de comprometimento e fidelidade a este pilar da cultura. Tudo sempre com o mesmo olhar refinado para as metáforas, além de uma intimidade tamanha com suas linhas. Mesmo no começo de sua trajetória, Leandro já demonstrava compor e entregar suas barras com a naturalidade de como se estivesse em uma conversa, quebrando e prolongando linhas sem se preocupar com erros métricos.

Fora do metarap, o MC demonstra propriedade como poucos para vir firme também em causas sociais, a dupla Cidadão e Soldado Sem Bandeira exemplifica bem isso. Enquanto Cidadão, no elegante instrumental de Leo Casa1 que sampleia os teclados cintilantes e progressões de classe de Don’t Let Me Be Misunderstood por Nina Simone, é um golpe forte da realidade aos ouvidos que a desconhecem, Soldado Sem Bandeira, de produção do próprio Emicida, é um chamado às armas, um grito de guerra. Aqui acontecem os versos mais técnicos de todo o trabalho. A abundância de recursos na caneta de Leandro, wordplays, rimas internas, duplo sentido, são tão presentes e tão bem combinados que até mesmo rimas externas que teriam de tudo para serem pobres ganham valor e destaque. Exemplos como: 

Trago no olhar a luz do poste fria, sem esperança (A) 

Me guia, e teus holofote é que cria minha temperança (A) 

Minhas lembrança é trote, eu via que a nossa herança (A)

É um cobertor na calçada que ia envolvendo as criança  (A) 

E também: 

Isso é nação e ‘cê na ação é encenação (A)

Hienas são alienação, me vê em ação (A)

Sobrevivendo como estrategista (B)

Vendo o caixão de vários jão (A)

Descendo vão e assim se vão, descanse então (A)

Se esse é o prêmio da guerra racista (B)

Raça também entra para essa mesma chave de combate em Pra Não Ter Tempo Ruim, track de produção de Emicida que vai aos tambores com ótimas viradas enquanto Mariana Timbó entrega um verdadeiro cântico no refrão com sua voz doce e suspensa. Emicida, em seus versos, fala das mazelas, dificuldades e motivações que alguém de sua cor convive, enfrenta e tem. Sempre carregado de seu peso crônico e portfólio criativo, buscando metáforas inteligentes e não usuais para evitar o desperdício de suas linhas. Tudo culmina em maturidade pessoal e artística.

Maturidade esta que se demonstra e se justifica não apenas em visões reflexivas e gerais, mas também em uma track rememorativa e talvez a mais intimista de todo o projeto, Ooorra… (A Que Deu Nome A Mixtape). A faixa, que encerra a tracklist, é a materialização mais firme e crua da realidade dentro da mixtape. A produção de NAVE é lenta, como se custasse a ela se desenvolver, em adequação a toda a dor que Emicida põe em entrega e letra para contar a sua própria história. Bateria espaçada, corneta ao fundo, sintetizadores distantes e não há quem não se emocione com a trajetória de Leandro quando este abre seu peito para falar dos sentimentos que encontrou na sua figura paterna. A dor vem pela ausência de seu pai seja em vida ou em morte e o impacto disso em um lar que precisou cada vez mais ser disfuncional para (sub)existir. O clímax acontece no refrão, um acúmulo de percalços, sacrifícios e mais sacrifícios empilhados, cada qual um peso a mais nas costas de Leandro e um pesar a mais para o ouvinte. Até mesmo nos momentos de superação, a atmosfera de dor persiste como ecos do passado, diferente das dificuldades vencidas no início, aqui nada sai ileso. Com a riqueza de detalhes de quem viveu, Emicida perpassa por flashs de pesadelos para justificar quem é como pessoa e também como MC, de onde nasce toda sua força e autoafirmação, como é visto no esquema a seguir do Redescobrindo o Rap: 

Sem dúvidas a salvação veio pelo Hip Hop, Hey Rap demonstra facilmente isso, uma carta aberta de amor à cultura, onde a arte é colocada em patamar primordial para a existências daqueles inseridos no movimento. De quebra, Dario entrega uma ótima produção com teclado e seus alçamentos de pitch, além de samples com sonoridades de referência clássica. Essa receita é repetida, em sua estrutura base, e ampliada em proporções gigantescas, em sua ambição, pela track Triunfo (A Rua É Nóiz), single (até então) de maior sucesso e projeção arrebatadora. É um grande hino, o grito de vitória e emancipação de toda uma geração do movimento Hip Hop. Tudo na track aspira à grandiosidade, das letras muito bem infladas por um bragaddocio honesto e lúcido, além das melhores punchlines do jogo em sua época, até a produção, assinada pelo próprio Emicida em dupla com Felipe Vassão, com samples de trompetes crescentes seguindo a atmosfera vitoriosa para que o MC pegue fogo durante todos os quatro minutos da música. É possível encontrar ecos da proposta de Triunfo tantos nos rappers que vieram logo em seguida, quanto, e até mesmo, em alguns poucos atuais.

Por ser necessário voltar ao começo, Emicida tem alguma coisa com títulos longos. Títulos tendem a representar obras, obras, como a sua mixtape de estreia ensina a todo momento, tendem a representar vida. Talvez seja isso. Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida Até Que Eu Cheguei Longe é um título longo e por isso contraintuitivo de uma obra também longa e grandiosa, que fugiu das mesmices intuitivas de sua época ao contar a trajetória de um menino preto de origem humilde do bairro de Cachoeira. Uma vida que, por sua vez, chegou longe quando, pelas intuições do sistema, estaria condenada logo em seu começo. Sendo assim, títulos e vida longa a Emicida.

Melhores Faixas: Rotina, Por Deus, por Favor, Hey Rap!, Triunfo (A Rua É Nóiz), Ooorra (A Que Deu Nome a Mixtape)

 

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