Review: Brockhampton – ROADRUNNER: NEW LIGHT, NEW MACHINE

Salve, Ravi aqui. A primeira vez que se escuta um grupo de rap é uma experiência única, carregado pelo desejo de saber quem são aquelas vozes. BROCKHAMPTON foi assim, simultaneamente, para milhões de pessoas que estavam bem conectadas às novidades que surgiam na Internet. Inteiramente formado por pessoas que se conheceram online num fórum dedicado a Kanye West, o grupo criou um boom instantâneo ao lançar três discos em apenas um ano, a trilogia de alta qualidade “SATURATION”.

Por mais que a musicalidade seja um fator indispensável para um grupo de rap que queira se destacar artisticamente, eles também tinham do seu lado a força de trazer algo diferente do que estava no mainstream. A química entre os integrantes era inegável para quem os ouvia e o motivo era simples: os mais de dez jovens moravam na mesma casa apenas fazendo música, quebrando padrões e barreiras entre o que é possível fazer no hip hop, dentro e fora do estúdio. Alguns anos e polêmicas (incluindo a expulsão de Ameer Vann, um dos membros fundadores do grupo) depois, lançaram “IRIDESCENCE” GINGER”, discos em que os cantores do grupo tiveram ainda mais espaço para trabalhar que nos trabalhos anteriores, focados principalmente na performance dos rappers. Dessa vez, com “ROADRUNNER: NEW LIGHT, NEW MACHINE”, o grupo volta ao equilíbrio da trilogia que abriu sua discografia, em um álbum repleto de bons versos e beats ainda melhores.

É fundamental para compreender o grupo entender sua capacidade de entregar logo de cara o que você veio buscar. Cada disco da trilogia inicial começa com uma sonoridade diferente, mostrando todas as possibilidades que o grupo poderia oferecer. O projeto seguinte inicia de cara com uma faixa agressiva, como se sentisse a necessidade de provar algo, e o quinto disco abre com uma das faixas mais melancólicas do grupo, deixando claro o efeito que a saída de Ameer teve no grupo. No novo lançamento não é diferente: “BUZZCUT”, com participação de Danny Brown, te dá boas vindas a um mundo em que BROCKHAMPTON não tem medo de olhar para fora para buscar o que precisa para evoluir, o que fica claro ao ver a tracklist cheia de feats, algo inédito na discografia do grupo.

Tanto nas rimas quanto nos beats, é possível notar o quanto o grupo se abriu para o mundo exterior. Os instrumentais de altíssima qualidade, mesmo sendo produzidos por membros do BROCKHAMPTON, aderem à personalidade dos convidados. Sobre um beat pesado, barulhento e abrasivo, Danny aparece esbanjando carisma e habilidade em um verso cujo único pecado é ser curto demais. Em “CHAIN ON” JPEGMAFIA manda um dos melhores versos do disco inteiro, com suas costumeiras linhas cheias de ironia e agressividade, fazendo junto de Dom McLennon, um dos melhores rappers do grupo, uma música que fala sobre violência policial, tudo em um beat esquelético com samples esquisitos e tempos incomuns, como são os que o convidado geralmente usa.

Em “BANKROLL” e “COUNT ON ME”, duas músicas com participação dos principais membros da A$AP Mob, a sonoridade  destes  também é puxada nas batidas, com  graves pulsantes, hi-hats rápidos e samples fantasmagóricos, elementos típicos do rap de Memphis que A$AP Rocky e A$AP Ferg têm como principal influência desde o começo da carreira.

Ao mesmo tempo que o grupo não tem medo de mostrar o quanto gosta dos convidados no disco, eles também não disfarçam suas próprias influências. “WHAT’S THE OCCASION?” é uma mistura de rock com hip-hop, com riffs de guitarra que lembram Nirvana ou My Chemical Romance. Já “WHEN I BALL” é uma homenagem descarada a Kanye West e N.E.R.D. (sem nenhuma surpresa, já que Chad Hugo, do Neptunes, produziu a faixa ao lado do grupo), com violinos, corais, linhas de baixo com bastante soul e uma percussão criativa e natural, enquanto os rappers escrevem versos extremamente pessoais, com destaque para o storytelling nos versos de Dom e Matt Champion.

Seguindo com as inspirações externas que permeiam o disco, já perto do fim duas músicas completamente opostas chamam a atenção. Uma delas é a incrível “DON’T SHOOT UP THE PARTY”, um g-funk pesadíssimo, com sintetizadores e baixos claramente inspirados por Dr. Dre mas com uma pegada mais moderna, com versos sobre violência, preconceito e saúde mental. A outra é “DEAR LORD”, um hino gospel cantado em uníssono pelo grupo, como se fossem um coral de igreja.

Ao mesmo tempo que a coragem de mostrar quem os influenciou gera resultados incríveis, esse aspecto também mostra um BROCKHAMPTON menos disposto a continuar a evolução de seu som. Ótimas músicas como “WHAT’S THE OCCASION”, “DON’T SHOOT UP THE PARTY” e “BANKROLL” funcionam apenas porque poucos riscos foram tomados ao misturar as óbvias influências e a sonoridade própria do grupo, indo contra a inventividade que o coletivo representava quando apareceu.

Outras misturas de influências simplesmente não funcionam, como “I’LL TAKE YOU ON”. A mescla de R&B com hyperpop parece uma combinação de mal gosto entre Usher e 100gecs. O beat é confuso, os versos são poucos inspirados e a modulação vocal é extremamente similar entre os membros, o suficiente para que basicamente não exista diferença entre quem está cantando. Isso tudo combinado faz a faixa ser um dos pontos mais baixos do disco.

Um grande ponto positivo deles é, além de saber como abrir um disco, também saber como fechá-lo. A música final, “THE LIGHT PT. II”, é uma continuação perfeita para “THE LIGHT”, que também é uma das melhores faixas do álbum. Ambas são faixas extremamente pessoais, com versos incríveis de Kevin Abstract, contando sobre seu difícil relacionamento com a família que não aceita sua sexualidade, e Joba, contando sobre os rancores e arrependimentos que sentiu após o suicídio do pai. A primeira das duas contém o que é provavelmente o melhor verso do disco, quando Joba, de maneira direta, coloca seus sentimentos já nas primeiras linhas:

When I look at myself, I see a broken man

Remnants of my pops, put the Glock to his head

Nothing ever go as planned, couldn’t make amends

Forcibly pretend I don’t give a damn

Os beats são fantásticos e reproduzem bem o sentimento destas músicas. O primeiro é um boombap pesado com samples de guitarra super distorcidos, fazendo relação direta com as dores e mágoas sobre as quais os rappers estão rimando. A segunda parte também conta com uma guitarra ao fundo, mas dessa vez a melodia é suave e agradável, acompanhando Kevin ao relembrar das alegrias da infância e de como conseguiu fazer as pazes com sua mãe e Joba ao falar da falta que sente falta do seu pai e de como vai contar sobre ele para seus filhos.

Mesmo com ótimo início e fim, é no meio que a coisa se complica. O incrível beat de “WINDOWS”, claramente influenciado pelo rap de NY com seus kicks e snares criando um boombap potente, é desperdiçado em uma cypher decepcionante. Tirando o convidado, SoGone SoFlexy, que manda boas rimas, os membros do grupo decepcionam ao longo dos 6 minutos de duração da track. Alguns com linhas vazias (muitas vezes tão abstratas que não fazem sentido) e outros com linhas agressivas ou de braggadocio que soam como uma interpretação de personagens quando saídas de vozes como de bearface., membro do grupo conhecido pelas canções lentas com influências folk dos discos anteriores.

No geral, “ROADRUNNER” peca por algumas falhas de execução e transparência extrema das influências do disco (beirando uma falta de personalidade própria, pela qual eles são tão conhecidos). Por outro lado, aqui BROCKHAMPTON entrega uma espécie de carta de amor aos artistas que os influenciaram e os influenciam até hoje através de uma produção fantástica, bons versos, boas participações especiais, sem perder a química entre os membros.

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