Review: Yung Buda – Músicas para Drift Vol. III

Z aqui. “Eu nem me envolvo, meu mano, eu sou cult”, é o que diz um verso no meio da “Autumn Ring Mini”, faixa destaque do “Músicas Para Drift, Vol. II” (2019). Yung Buda é realmente cult. Não apenas seu gosto ou suas referências, a sua própria arte mira – e atinge – uma produção cult. E isso tem um resultado inesperado: a produção toda cria por si uma estética e a exerce vorazmente, fazendo todos os sacrifícios que deveria para isso. Histórias viram fragmentos e a construção das letras se fundamenta na utilização de referências para criar um universo próprio. Yung Buda, então, chegou ao cerne de sua arte, mais do que cantar uma estética cult, cantar um lifestyle – ainda que cult – e, por assim dizer, dá vida e substância a uma lifestyle novo. Desse modo, o resultado sonoro de uma música é só a primeira camada da existência de algo maior.

 

 

“Músicas para Drift” (2017) junto de “Regina” (2017) – tendo seus lançamentos espaçados por pouco mais de um mês – marcaram o começo de um caminho frutífero para a Soundfoodgang. E, ainda que por caminhos totalmente diferentes, conseguiram criar bases sólidas de ouvintes ansiosos para os próximos trabalhos. No caso de YB, já nesse primeiro contato, sente-se as qualidades que seriam características marcantes de seus projetos vindouros. Singles depois viria “Halloween o Ano Todo” (2018) demarcando os territórios de sua composição, terrenos que o rapper viria a se consagrar e se tornar conhecido por.

Mais alguns singles bem sucedidos depois, na primeira metade do ano de 2019 viria a “Músicas Para Drift, Vol. II”. Uma curva de qualidade de completa ascensão em sua carreira, a qual Buda atingiria o seu auge. Tudo que eram apenas características agora ganham uma consistência maior na criação de ambientes: os animes, jogos, artigos de roupa, carros e todo o resto são bem melhor dispostos. E, se as letras ganhavam mais corpulência, a produção acompanhava no mesmo ritmo.

No final do ano, viria o – já talvez infame – primeiro álbum, “True Religion”. Este dividiria opiniões sobre sua experiência, principalmente por sua sequência final, como se o álbum se alongasse por mais tempo do que deveria. Neste, o peso da subjetividade de se identificar com o lifestyle e toda a estética e atmosfera que se cria começam a pesar e cansar aos ouvidos menos empenhados. Em um período mais complicado para todos, em pleno 2020, sairia o tímido “How To KILL”, por outro heterônimo, com pouco destaque e sucesso. E eis que, menos de um ano depois de seu último trabalho, mas já quase dois anos depois de seu antecessor, temos a sequência da saga “Músicas para Drift”, agora em seu terceiro volume, essencialmente um disco interessante onde Buda se apresenta muito mais maduro em sua posição diante da música, escrevendo ou produzindo. Porém, isso encontra certo ruído em suas novas experimentações musicais que o rapper decide trazer.

A experiência começa já com o single do álbum, “Katana & Pistola”, que acaba por fazer um jogo ruim com a expectativa de um trabalho novo do ouvinte – no geral, singles, além de serem uma espécie de publicidade para o trabalho, são usados como um respiro na experiência. Não há, no entanto, como negar que o resultado da faixa é fascinante, principalmente por motivos como o loop do beat, a facilidade de Massaru (feat da faixa) em brincar dentro da estética de Buda, criando uma dinâmica interessante com a métrica e flow do dono da faixa, que por si só já chama atenção. Um detalhe menos marcante na track, mas que usado com exímio aqui, é a colagem do Cutty Ranks, cantor jamaicano de dancehall. O recurso da colagem vai ser usado e abusado ao longo das seis faixas, acertando algumas vezes e criando algo meio bizarro em outras – como na penúltima -, artifício incomum às produções anteriores. O ponto alto do recurso será quando mesclado com maestria à faixa, obtendo um resultado que se aproxima de um feat.

Na segunda track, mais rápida em seus menos de dois minutos, o rapper trabalha em cima do famoso League of Legends e o personagem Yasuo. Apesar de um resultado sonoro agradável, com o beat de sample vocal e iniciativas de falta de intro, já fica claro as distâncias que vão sendo criadas para aqueles que não estão profundamente no mesmo universo que o YB. A decisão acaba sendo ruim de encaixar a faixa neste trabalho, destoando do resto, não pela referência em si, mas por como é trabalhada.

Em “Rejeite Falsos Ícones” atingimos um resultado soturno sobre o sample de “Tokyo Drift”, uma colagem de “Get Low”, de Lil Jon & The East Side Boyz, o refrão retirado da “Segredo Além do Jardim”, de seu álbum “True Religion”, e uma ponte com Lil Wayne. Além de tudo isso, há ainda o maior esforço por parte de Buda em contar uma espécie de storytelling, ocupando quase que um terço do único verso e que desemboca, é claro, em sexo no camarim. Toda essa bagunça com um clima sombrio em uma batida mais eletrônica é a própria atitude do rapper de se colocar como um DJ remixando sua própria música em um contexto totalmente diferente.

Aberto os caminhos, temos “Hayabusa Chromo”, o experimento eletrônico do álbum e também seu ápice. Tudo nela funciona, voltamos a uma escrita de Buda em seu estilo mais comum, mas com um flow mais enérgico para integrar-se à batida produzida no ponto, exatamente no ponto. Além de tudo, há uma colagem menor, mas mais poderosa e profética, que molda toda a energia da faixa em uma fala quase catártica.

Na sequência somos surpreendidos com a “Sticker do Haunter”. Se na anterior tudo funcionava, aqui as coisas descarrilaram dos trilhos totalmente. Apesar da performance lírica e rimada não ter grandes elogios, não possui grandes defeitos também, Nikito inclusive possui um verso melhor que o dono da track. Entretanto, a performance da produção deixa totalmente a desejar em sua megalomania “remixante”, misturando um bocado de coisas que não ornam e nem contribuem de forma positiva para a experiência sonora. Todo esse tumulto em um beat que fica flutuando e sofrendo mudanças ao longo do percurso acaba só por destruir a performance dos rappers e desconectar o ouvinte, comprometendo a experiência justamente na reta final.

Na última faixa, “Riders X”, contando com a presença tímida de Choice, parceria que já tínhamos visto em “New Wave” de True Religion, temos o mesmo sample da primeira faixa do MPD, criando um conceito de encerramento que se amarra ao início, como se retornando aonde tudo começou, porém, em uma construção bem mais complexa, recheada por graves eletrônicos. Tematicamente nos aproximamos novamente dos carros, como se aproveitando das sensações de dirigir para terminar quase cinematograficamente, mas ainda abraçando a estética.

Se em “True Religion” possuía um destoar entre as opiniões sobre, aqui temos como conclusão uma entrega não tão bem quista. Longe de ser uma mancha na discografia, mas o álbum é uma sequência cheia de experimentações não tão bem planejadas para a franquia “Músicas Para Drift”, que tinha, em seu lançamento anterior, alcançado o auge do rapper. É notável o quão mais maduro ele está produzindo e criando música, mas suas tentativas não são tão certeiras, possuindo entre seis faixas duas nada marcantes, “Riders X” e “Drift de Yasuo”, e uma completamente descartável, “Sticker do Haunter”.

“Músicas Para Drift, Vol. III” no fim acaba por ser um disco melhor por sua experiência geral, muito sustentada por seus pontos altos no meio do disco, e que tem no cerne de sua funcionalidade a empiricidade do som e da música. Mesmo que tenha seus pontos baixos, ainda é um disco autêntico, cheio de personalidade, utilizando muito bem de sua estética pré-estabelecida e demonstrando a maturidade do artista em relação à própria produção.

É interessante ver, sobretudo, como é difícil manter um estilo estético vivo: há de fazer ele correr periodicamente e necessariamente traduzir e reescrevê-lo, a fim de não o deixar desgrudar do cotidiano das pessoas, sendo alimentado por novas referência, e, quando alguém entrar em contato com algum produto referenciado, lembrar da relação com aquela estética. Porém, cinco trabalhos depois, Yung Buda começa a dar ares de um esgotamento estético. Nesse ínterim, as novas experimentações e possível encerramento do “Músicas Para Drift” fazem sentido, já que sua essência, o lifestyle, está ao menos estagnado e sem nenhuma grande inovação. Isso por si só não é algo negativo, haja vista que uma estética fica viva enquanto for experimentada, mas é dramático o lugar atual dela, necessitando urgentemente ganhar novos ares.

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