Review: Thiago Elniño – Correnteza

Salve, Valtinho aqui. Nos últimos 5 anos, Thiago Elniño tem se mostrado um dos MCs mais consistentes do underground nacional, seja no exercício da caneta ou na transmissão da mensagem. Seu esmero na composição e na organização das faixas já era notável desde “Filhos de Um Deus que Dança” (2016), mas essa habilidade foi ainda mais lapidada com o seu primeiro álbum de estúdio, A Rotina do Pombo, que hoje se mostra como um dos trabalhos do “ano lírico” que melhor envelheceu. Em 2019, o MC expandiu sua sonoridade e seu discurso com “Pedras, Flechas, Lanças e Espelhos”, além de dar espaço para um intimismo que, até então, era secundarizado pelos versos mais incisivos. Chegando em 2021,  temos o lançamento de “Correnteza”.

 

 

Com pouco mais de 40 minutos distribuídos em 11 faixas, esse disco é a síntese de todos os bons frutos já colhidos pelo MC. Seu conceito pode não destoar tanto de outros grandes trabalhos que também fizeram analogias com a imersão, como em “Oceano” (do Negus) ou “A Grandiosa Imersão em Busca do Novo Mundo” (do Rap Plus Size), mas as óticas escolhidas são exploradas o bastante para que o disco soe fresco. Duas dessas se destacam e são justamente as que servem de fio condutor para todo o projeto: os efeitos sociais, psicológicos e espirituais da diáspora; e o potencial libertador que a ancestralidade possui.

Mas não só de discurso um bom álbum sairá. E, felizmente, o Elniño sabe disso. Como resultado, a produção e a mixagem, comandadas pelo já parceiro de longa data Martché,  se tornaram mais duas das várias qualidades de “Correnteza”. Se a produção já é majoritariamente influenciada pelo igualmente político afrobeat, a mixagem atua para assegurar uma unidade entre os diversos instrumentos de corda, sopro e percussão utilizados no projeto. Ainda na sonoridade, é interessante como boa parte dos refrãos se aproximam de cânticos religiosos. Alguns são combativos e esperançosos, outros apenas melancólicos, mas todos no ponto. As participações vocais também foram um bom acréscimo para o trabalho, já que além de serem bem performadas por diferentes cantores e intérpretes, também dão maior substância para a mensagem coletiva que o MC reafirma.

Na primeira faixa, intitulada “Bodoque”, Elniño começa descrevendo a sua relação com a umbanda e o candomblé, para depois criticar a forma que elas foram (e ainda são) vistas e subjugadas pelos braços do cristianismo.  Vale a pena destacar a modulação de voz do MC, que vai da ternura ao confronto sempre que o verso pede. Essa técnica também é utilizada em “Baque” e “AfroSamuraiGuerreiroNinja (O Retorno)”, que, por serem faixas mais estilo-livre, acabam dando maior espaço para punchlines mais criativas.

“Cês não me viram voar

Mas é quem gosta de bosta

Sempre anda olhando pro chão

Muitos dirão que é um urubu

Outros, que é um anjo preto

Tua inteligência é o que garante tua interpretação”.

Por outro lado, “Dia de Saída” e “Vampiros Veganos” são faixas bem mais diretas e aprofundadas em suas críticas. A primeira comenta a objetificação dos corpos negros e a desvalorização de suas capacidades cognitivas. A segunda dá continuidade ao raciocínio, expondo como essas ideias contribuem para que os pretos continuem sendo explorados pelo capital, principalmente quando aliadas à noção liberal de que seria possível algum tipo de negociação ou equivalência com o outro lado (Cês ‘tão pedindo pra vampiro se tornar vegano…).

Nesse sentido, “Hoje Não!” funciona como o ponto de virada de todo o projeto, quando todas as problemáticas já foram expostas para que agora surge a possibilidade de superá-las. Outra ênfase deve ser dada para o instrumental, pois é justamente a presença do saxofone que transmite a sensação de triunfo sobre racismo estrutural. Essa faixa tem participação do Sant, que desde sua volta do hiato vem lançando versos memoráveis, e dessa vez não foi diferente. A química entre os dois MC’s é gritante; desde a icônica “Pedagoginga”, dá pra ver como um incentiva o outro a dar o seu melhor. O anfitrião mandou bem, usando barras maiores para construir um verso mais contundente, mas o convidado largou o que talvez seja o melhor verso do ano até aqui.

Meu bairro carrega traumas irreversíveis

Injustificáveis, porém compreensíveis

Devido a tanto descaso, descuido e dor

No livro da minha história, tu é ladrão

“Descobridor” pra não dizer estupro

Estude, criança preta

Não deixe te confundir, não deixe de conflitar

Não deixe de combater, não deixe de moderar

Não deixe te embranquecer, nem ao menos te morenar

Complementando numa perspectiva mais intimista, temos “Dengo” e os interlúdios do álbum, que servem como um respiro entre as músicas mais combativas. Podem não ter tanto a dizer além da letra em si, mas são compensadas pela entrega mais serena e afetiva do rapper. E isso faz a diferença, porque, como já deu para perceber, o disco tem muitos e muitos acertos, mas às vezes exagera nessas linhas mais divisivas no que tange a raça. Não que versos irônicos e agressivos não tenham a sua importância, numa faixa mais despretensiosa, eles podem torná-la mais interessante, mas, quando postos num som com uma temática fechada, acabam distraindo. E “Dengo” é uma das poucas faixas sem esse vício. O mesmo vale para os dois interlúdios, mas é uma pena que o primeiro seja tão curto.

A partir daí, o disco vai partindo para os finalmentes, com Elniño retomando a importância de se ter uma relação equilibrada e saudável com sua espiritualidade, mas agora de uma perspectiva mais ampla do que pessoal. Tanto a faixa “De Onde Nascem Os Sambas” como a “Odú (Caminho)” contam com produções bem variadas, mas são a percussão e os vocais ao fundo os elementos mais expressivos. Mingo Silva e Caio Prado fizeram um ótimo trabalho nos refrões, mas é a repetição da intro de “Odú”, proferida pelo próprio Thiago, que permite o álbum terminar com o mesmo feeling de coletividade que o iniciou.

Que não nos falte fé

Nem boas energias

Que sejamos axé

Em meio a correria.

Como já mencionado antes, o projeto não é perfeito. Há momentos em que o discurso oscila nebulosamente entre a catarse e a didática, o que torna alguns trechos meio contraproducentes, no sentido de apontar para um problema estrutural, mas dar pouca margem para que o ouvinte também o interprete. Causar desconforto é um dos objetivos do rap, mas existem formas e formas de fazer isso. E linhas como “Eu sou tipo um Thanos com recorte racial/ Se eu junto as jóias do infinito, cês sabem quem vai sumir” soam gratuitas, pois causam um desconforto que não traz nada mais profundo.

Mas no geral, o saldo de “Correnteza” é muito positivo, com uma performance e uma lírica que só se alcança depois de muita maturidade musical. Sua produção é coesa e imersiva, conseguindo dar as nuances que verso nenhum conseguiria. E ainda que uma parte dessas qualidades também se encontre nos discos anteriores do MC, o rearranjo delas é bem executado. E, em tempos onde falsas equivalências, jargões baratos e mea culpa insincera são confundidas com politização real, é sempre refrescante ouvir mais um MC tão comprometido a apontar essas mazelas e fazer com que o seu rap “não morra antes de ter um ano de idade”.

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