Review: Monna Brutal – 2. 0. 2. 1. (LADO A)

Ascencio aqui. Monna Brutal, rapper de Guarulhos, está de volta com seu segundo álbum, “2. 0. 2. 1. (LADO A)”, lançado pouco mais de dois anos depois de seu primeiro projeto, “9/11”. Nele, as características principais da MC já eram apresentadas desde a sua representatividade extremamente afiada e combativa, seja pela comunidade LGBTQ+ seja pelo movimento preto, até seus recursos técnicos mais destacáveis como sua contundência de entrega e flow. Em seu novo trabalho, em parceria com o produtor Fr3elex, o ouvinte é conduzido por 11 faixas em aproximadamente 35 minutos, tempo suficiente para falar bem o que tem a dizer. Monna é uma MC de ofício, o que merece muita atenção.

 

 

A brutalidade da rapper é um dos seus carros chefes e não poderia passar batida por aqui, “F. I. G. H. T.” é a primeira track responsável por bater tão forte quanto a produção que vai ao eletrônico.  Nela, a MC apresenta um refrão de variações contagiantes, já nos versos, o que se destaca é a naturalidade em preencher suas métricas em alta cadência quando ocupa os tempos ao acelerar e, logo em seguida, reduzir, demonstrando uma boa dinâmica.

Outro bom exemplo disso é “Produção em massa”, faixa responsável por fechar o projeto. O acerto em boombap é em cheio, começa por uma estética nacional passadista, a conhecida empostação de linhas levemente aceleradas com um estresse acentual final, em ascendência; depois, na maior parte da track de mais de cinco minutos, as acelerações de ritmo funcionam e casam bem com as reduções de velocidade; suas linhas também chegam a dobrar, a MC coloca duas em quatro barras, em mais um artifício clássico.  Além disso, há temática “metamusical” onde Monna apresenta seus créditos por sobreviver como artista independente. O resultado final é extremamente adequado e respira a rap e boombap nativo.

A oposição é feita por um segundo lado mais calmo, representado por instrumentais mais lentos como a abstrata “Balanço Cósmico” com o melhor instrumental do projeto, um boombap extremamente intimista com teclado e hi-hats bem agudos.  Monna surpreende, vindo mais rápida que o beat, o que cria um interessante contraponto, com boas transições de versos rimados para os cantados, mesmo com alguns deslizes. “Partidas” usa esse mesmo intimismo, mas lhe acrescenta mais sentimento e certa fragilidade em uma bela atmosfera acústica. A rapper, agora mais cantando, põe a jogo uma performance na medida e demonstra ter uma boa voz para entrega mais melódicas, além de manter notas interessantes e ter dobras de qualidade, tudo em uma bela composição.

Tive que voltar, tive que partir

Pra entender um pouco sobre o meu eu

Que sempre foi nós, mas me deixa aqui

Novamente com o que sobrou do seu

E se ao chegar, tiverdes que vir

Locomova-se e veja o que é teu

Pra poder honrar e assim seguir

Com os motivos que o nosso passado deu

Apesar de seus acertos, alguns problemas também são vistos. “Poder ao povo preto”, de letra curta mais muito representativa, flerta com um reggae um tanto contido, sem muitos elementos de produção desenvolvidos além da cadência do teclado e viradas de bateria. Monna, desta vez, desliza em desafinações acompanhadas por um novo elemento harmônico  em um timbre que destoa tanto da proposta musical quanto da voz da MC. “Neurose”, um verdadeiro manifesto que a MC faz aos seus, marca erros no boombap já que habilidade métrica, elogio anterior, não ocorre aqui. Brutal tenta estender suas linhas e acaba sem conseguir encaixá-las em suas barras, às vezes tenta correr com as notas, em outras apenas começa uma nova linha na metade do loop, o que prejudica muito o andamento do som e não lhe garante unidade, principalmente em seu primeiro verso. “Fragilidade” é outro deslize na mesma área, ao mudar para o trap, a rapper não se preocupa em adequar seu flow para o subgênero, entregando o seu padrão mais acelerado (usado na maior parte do projeto), acompanhado de problemas de dicção aqui e ali, sendo assim, não há fluidez entre letra e instrumental (algo que já havia acertado na mistura de techno e dance music de “Queen”, quando a proposta funciona).

Outro problema que assola o projeto, e talvez o mais sério deles, está na produção e pós-produção de instrumentais e voz. Como já mencionado, os beats são, em sua grande maioria, simples e pouco inventivos, abusando dos mesmos loops principalmente quando aposta na vertente eletrônica, onde o dinamismo é algo mais valorizado. Isso não seria um desvio tão grande não fosse a baixa qualidade de mixagem e masterização das tracks. “Interlúdio” vem com um tratamento de voz bem abafado o que prejudica a compreensão, principalmente junto aos sintetizadores que ocorrem, por vezes, um pouco fora do tempo quando tentam se desenvolver. “Estrago” possui uma master bem baixa, o que também prejudica a compreensão, contribuída negativamente a um excesso de speedflow.

Monna Brutal faz resistência e subverte muitos lugares comuns extremamente batidos no nosso cenário nacional, expondo e vencendo fragilidades, combatendo agressores, ensinando o ato de resistir. Por isso, o valor em sua produção musical, para além de qualquer qualidade técnica, que também existe, e a despeito de quaisquer problemas e dificuldades próprias, enquanto minoria, e artísticas, enquanto independente, deve ser ainda mais valorizado. Um LADO B vem aí, e que bom, precisamos de mais.

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