Review: Laysa – Ghetto Woman

Saudações aos leitores, Diana aka Panther na casa! Em meio à premiação mais plural das mídias de rap, o nosso Shit de Ouro, continuamos com a programação normal de reviews, até porque a produção musical nunca para, né?

Laysa, rapper cria de Osasco, grande São Paulo, tem como seu trabalho mais importante o EP “129129”, de 2016, lançado sob o selo da Som Livre. O projeto foi considerado em várias listas como um dos trabalhos mais relevantes de seu ano, o que conferiu à rapper reconhecimento nacional, em uma época onde era mais raro ver mulheres MCs em listas nacionais. Desde então, vem soltando projetos soltos, lançou, por exemplo, tracks com beats de trap quando o subgênero ainda não estava em ascensão. Com assuntos que pautam o feminino em suas diversas facetas, no sentido de poder, liberdade sexual e também violência aos corpos, a rapper foi lapidando seu espaço na cena com uma língua afiada e cheia de acidez. Além disso, é Criadora do “Bucepower gang”, grupo que busca o empoderamento feminino por meio da liberdade erótica.

Como toda artista em crescente, a expectativa é depositada nos trabalhos futuros e agora, ligeiramente consolidada, Lay prometeu, em sua conta no twitter, repetir seu feito e lançar um dos melhores álbuns nacionais do ano. O título do material, que também dá nome ao primeiro single lançado, já levanta uma ideia de continuidade, apesar do longo período que os separam (ninguém é obrigada a lançar álbum todo ano, pois é). Lançado pela KL Música, selo do DJ KL Jay, “Ghetto Woman” conta com vários beatmakers independentes e alguns feats interessantes. O trabalho também veio com um marketing “agressivo” e deu certo, já que corremos para escutá-lo, no entanto e sem mais enrolação, a pergunta que deve estar na mente dos ouvintes é: “Ghetto Woman” atinge estas altas expectativas estipuladas? É o que veremos. 

Lay sempre lança na primeira música um chamado para o projeto, uma apresentação, e nesse caso, temos “Introdución Woman’s”, produzida por Attlanta, beatmaker que vem ganhando merecido espaço no cenário, e a MC não mede palavras. O videoclipe, repleto de notícias de violência misógina, juntamente com a lírica, possui linhas pesadas que se refletem em um beat trap quadradinho, com poucas viradas e sample simples de piano. Ao mesmo tempo que ela escreve sobre si, é muito fácil as ouvintes se identificarem com a letra que abusa do storytelling, o que se converte em um ponto alto. Por outro lado, sua caneta não se preocupa em ter uma métrica e refrãos definidos, isso é recorrente e funciona muito bem em algumas músicas porém em outras, como nesta, não muito, criando uma atmosfera bagunçada. A qualidade de composição passa por altos e baixos, há uma repetição na sílaba “ões” que pode incomodar, mas, na virada para um pseudorefrão, a rapper consegue trazer um verso forte, mesmo que simples. 

Só pensava 

Em vazar 

Comprar uma casa 

Enquanto a maconha 

Me deixava cada vez mais

Sensibilizada com a minha própria causa 

A família e tudo aquilo que eu carregava  

Na segunda faixa, “Badness Gyal”, o instrumental é o ponto alto, com um beat, produzido por Nostalgia Mob e 33, que tem a guitarra como diferencial. Aqui a track foge do trap convencional da intro em um esforço de não se ater a algo padronizado, nessa tentativa, peca no exagero de hi hats enquanto acerta no bom uso dos graves. A letra faz questionamentos sobre a necessidade de, após 4 anos, Laysa continuar batendo na mesma tecla sobre ocupação de espaço como mulher dentre outras insatisfações, evidenciando como um problema ainda em foco, apesar da ascensão de algumas mulheres no rap nacional nesses últimos anos. Enquanto isso a lírica, novamente nada excepcional, não revela uma continuidade nas ideias colocadas, sendo um ponto negativo por acabar deixando o som com aspecto jogado. 

Tanto os feats quanto as produções foram bem pensados, mas foram muitos, com nomes consolidados do dancehall, Crocodile em “Killing All”, do reggae,  Helio Bentes em “Abraços de Resistência” e também nomes quase que desconhecidos no rap até então. Há preocupação em visibilizar esses artistas que, além de largarem linhas, também produzem, são os casos de: Nostalgia Mob em “Nostalgia” e Caue Gras em “Mulata Latina”.  Retomando, a faixa  “Killing All”, produzida por Seithèn, é o oposto da segunda faixa em sentido lírico, Laysa não desperdiça palavras e apresenta várias referências, inclusive sobre sua própria marca de roupas; a abertura de “Crocodile” em inglês coloca o refrão poderoso e chiclete no início da track, o que é instigante junto ao beat de dancehall. Na virada para Lay, o seguinte verso se encaixa muito bem no beat impecável, lembrando os velhos tempos de instrumentais soul/hiphop de Afrika Bambaataa; na faixa em questão a mistura dos elementos foi um sucesso. 

Pomba gira e a grana multiplica

Cansada de ser pobre 

sou uma mulher jovem 

mamãe dizia filha fica rica

me tira dessa vida limpando 

casa de outras família sem divida 

sem dúvida agora não dá pra engravidar 

nem emocionar por causa de pica minha caneta 

vale por trinta rappers rimando bitch em todas as tracks

 

Não podemos tecer os mesmos elogios a já mencionada “Abraços da Resistência”, produzida por Addis Pablo, a track não consegue empolgar, mesmo com as belas palavras e  participação do cantor de Ponto de Equilíbrio. Outra infelicidade estaria na posição em que a, também já citada, “Nostalgia”, produzida por 33, se encontra na tracklist. A faixa possui um raro beat de tecnofunk de potencial imenso, mas é disposta logo após o dancehall o que destoa bastante em mais um problema de continuidade. Com isso, a música, de bons versos que se apresentam como verdadeiros manifestos, deve funcionar melhor em um pick isolado, ao agregar em tudo que Lay resgata politicamente em sua carreira. 

Em “Mulata Latina” – com título que incomoda, já que a origem dessa palavra  é bastante preconceituosa – , há  uma visão bastante caricata de latinidade em um combo de “portunhol” por parte da MC. Apesar disso, a track serve para revelar um artista pouco conhecido: Caue Gras na produção de um bom beat dançante com toques de tecno e pop. O ritmo do instrumental também casa bem com o flow de Laysa, existindo até, apesar de tudo, pontos para destaque:

Longe da cidade atraindo

Olhares já virou comum

Não sou todo mundo

Impar não são pares

Não sei o que passou 

To passando mal 

Viajando na tua

Onda vou tomar

Um caldo chegou

Dominando todo

O litoral cheia de 

Postura ela vem 

Falando alto

Esta última música coloca o álbum em uma tendência mais comercial, ponto que começa a ser mais percebido no miolo. O reggaeton, ragga e afins são tendências exploradas exaustivamente por artistas pop atualmente, no entanto, aqui, Laysa não vai apresentar essas ideias de maneira tão seca, justamente pela sonoridade não se concentrar apenas nessa única influência. É de se esperar que cada vez mais artistas, principalmente mulheres, se sintam pressionadas a explorar esse lado na busca de serem absorvidas pelo mainstream.

O fato de Lay arrastar uma rede de jovens produtores e produtoras com ela é um ponto crucial. Tanto que na faixa “Plow” com feat de ALZ e Slim Libra, rappers com rimas em inglês, percebemos que não é apenas em ritmos latinos que a MC vai se banhar, já que influência do trap em Laysa sempre foi bastante forte, antes mesmo do “boom” do segmento no Brasil. Um ponto de destaque desta música é a sua estrutura que foge do óbvio em tracks colaborativas: Lay lança o refrão chiclete e os rappers convidados os versos no melhor estilo traphouse com viradas, hi hats, snares e 808 certinhos, 0 broncas. 

De maneira ampla, as produções e participações que Laysa convoca, trazem muito mais as características deles do que da dona do projeto, deixando o álbum muito misturado em referências. Mesmo que seja admirável a maneira dela meter a cara tapa na experimentação, fica evidente a falta de um elo entre as faixas que, separadamente, são mais poderosas. A sonoridade passeia pelo trap, raggae e dancehall, em um conceito que tinha tudo para ser original se fosse lançado um pouco antes na linha do tempo, apesar de não mentir a qualidade de produção. O material nos fez questionar os caminhos percorridos pelos artistas em linhas tênues entre o que é ou não original. Ao contrário do “129129”, “Ghetto Woman” não supõe essa originalidade por estarmos em 2020 e o cenário já estar assimilando outras ritmicidades ao hip hop. 

Resumidamente, o álbum é um compilado de ideias onde Laysa meio que joga com o fato de conseguir matar no peito e fazer o gol com qualquer ritmo, mesmo que talvez não fique tão bonita a troca de passes. É bom? Dentro do que a produção propõe, com certeza. Porém, de certa forma ela parou no tempo para trazer uma continuidade ao projeto anterior quando o próprio já possuía um começo, meio e fim bem definidos. É como se ela quisesse reafirmar do que é capaz, e faz bem em certos pontos, mas no contexto geral do compilado, não há em um conceito e organização que permeia um álbum memorável, algo que esperava-se encontrar depois do sucesso que foi o trabalho de estreia. Então, a resposta para as expectativas criadas  são: “Ghetto Woman” é um trampo que só Laysa faria, mas as referências e misturas experimentadas foram tantas que boa parte delas carregaram o trampo para uma identidade muito ampla, deixando suas próprias características um pouco nebulosas. Sendo assim, passa longe de ser o melhor do ano. Talvez na próxima.