Review: SD9 – 40º .40

Salve galerinha da vanguarda. Dourado e JH combinando para o texto de um dos melhores trabalhos deste ano. Diretamente de Bonsucesso, SD9 redefine o grime à brasileira, seguindo o caminho pavimentado principalmente pelo Brasil Grime Show (programa que tem como objetivo fomentar o grime no país) e trazendo ainda participações de outros expoentes e parceiros dele. A partir de agora “40º .40” é a cartilha de como trazer estéticas para o Brasil sem soar como uma cópia.

 

 

Seria um grande erro falar que o álbum traz o swing do Brasil ou do Rio de Janeiro. O que vem embutido em cada flow, cada beat alucinado e cada vocalização de quem mantém um perfil baixo é a malícia exigida para (sobre)viver nessa terra bendita. Um defensor da tese de que o Rio de Janeiro não pode continuar lindo se para muitos nunca foi, SD9 pinta em suas rimas a tela de uma cidade quente, criminosa e cheia de lazer, já que o caos é só mais uma parte do cotidiano. Essa dualidade explicitada no título aparece em cada momento, desde as primeiras linhas do trabalho, em “Jukebox”:

Amarelo do Sol, azul do mar (Mar)
Cinza asfalto quente, vermelho do sangue
30 no pentão, sinal de facção (Tá dois)
Brota as doida pro Baca, setenta balão (Ainda)
Pobre no amor e no ódio ao mesmo tempo (Oi)
Preto com meiota é zero sentimento (Oi)
Desce gelo que vai começar o primeiro tempo
Rola a bola no Maraca que é Vasco e Flamengo

O mais agradável é que essa abordagem das diferenças da cidade se dá sem uma previsível separação de “lado A lado B”, Cidade Maravilhosa vs. Vida de Facção ou algo do tipo (mesmo que haja alguma separação temática na reta final). Aqui, há uma bela mistura entre os extremos, passeando pelos meio termos com uma facilidade descritiva incrível, pintando paisagens, personagens e locais.

Com produtores diversos, a curadoria dos beats de Rennan Guerra foi impecável. Alucinação e intensidade características do grime e a familiaridade do brasileiro com o swing das batidas de funk formam, neste trabalho, uma mistura tão linda que nem parece que é uma. Poze do Rodo”, excelente combinação com Drope e Leall, é o que você precisava pra apresentar grime para os seus amigos, sendo uma faixa que está mais para um funk com elementos do gênero britânico que o contrário, expondo novamente a dualidade da vida do crime nos morros cariocas, entre mortes e bailes. O jeito que aqui se une o funk com as boas características esperadas de um rapper, a ambientação carioca e as variações de flows para exibir a técnica da escrita remetem imediatamente ao “Seguimos Na Sombra”, do Nectar Gang

O swing de alguns momentos, varia com um ar mais sombrio em outros. “Odp & Sangue” é uma faixa de por medo em criança, pelo beat soturno de Diniboy e a entrega mais bruta que mantém o nível da track. As mudanças de flows são frenéticas, com linhas curtas sendo colocadas uma após a outra com extrema habilidade pra uni-las a flows mais rápidos ou separá-las com os mais pausados. É certamente uma das tracks mais completas do disco.

Se a faixa acima tem 4 versos, vale destacar outra com menos escrita: “Astra 1.8” é a mais elétrica do álbum, com um beat incrível de Chediak, que conta com um verso repetido, ponte refrão. O flow de SD é de tirar o ar, indo de 0 a 100 em questão de segundos e desacelerando quando necessário com leveza também, sendo essa característica uma arma que o MC empunha pelo álbum todo.

O ponto alto do disco, sem dúvida, é a faixa título. Sobre o lendário sample de “Theme Of Kiss Of Blood”, o mesmo usado em “Vida Loka (Parte 2)”, o beat mostra um alucinante grime com elemento de funk, dando o campo pra SD9 explorar seu melhor flow, frenético e acelerado, com uma escrita que é o centro do disco. O refrão traz a síntese do que é o trabalho e o Rio (“40 graus, ponto 40/Olha o AR Baby, olha a marquinha da morena“) . Os versos são todos do mais alto nível seguindo esse conceito, e o momento da troca de bastão de SD9 para VND é simplesmente incrível, ambos os versos mantém o nível muito alto. O beat switch então é de outro mundo (não à toa foi indicado a beat do ano no Sh!t de Ouro).

Após isso, as coisas mudam de figura, a seriedade e a urgência das nove primeiras faixas dão lugar a uma sequência de, basicamente, putaria. “Oi” é a faixa mais dançante de todo o projeto, saindo do grime para um garage, onde o MC passeia com a mesma facilidade enquanto narra uma conquista durante um baile regado a drogas e bebidas. “Sexo” é o ponto baixo do trabalho, com uma mudança de ritmo para um beat mais contido e uma performance mais cantada, o que não funciona tão bem com a voz de SD9, principalmente por colocar tão em evidência as letras extremamente explícitas. “Stop Time” é um collab entre o dono da casa e a rapper “N.I.N.A”, que basicamente traz a vibe funk 2000’s com a violência grime 2020’s, com uma escrita mais interessante da dupla, passeando entre o literal e o figurado ao mostrar uma bela química. Antes do fim, voltamos com HB20, uma faixa com um belo beat e um dos melhores refrãos do trabalho e uma finalização muito digna para essa obra.

Não existem pontos fracos evidentes além de “Sexo”, o que resta, nesse sentido, são apenas uma ou outra faixa que são só “não tão boas” como “Números”. Quando o álbum começava a se tornar previsível na sua primeira porção, onde a mesma fórmula foi repetida um pouco mais que o desejável para uma estética tão abrasiva e soturna, a oração de “Fé Em Deus”, a incrível “40º .40” e a sequência final mudam totalmente a figura do trabalho e impedem que qualquer monotonia se instale.

Elevando uns degraus o grime em terras tupiniquins, “40º.40” traz absolutamente tudo. Letras com narrativas, rimas complexas e flows sempre variantes. Beats para agradar quem é imerso no ritmo e quem é aquém. Uso da voz, conexão de temas, tudo isso com uma entrega excelente. Tendo de tudo um pouco e com excelência, só depende da cena do grime fluir para que este álbum se consolide como clássico e grande abridor de portas.